Harnack via Marcion como um teólogo bíblico radical e um reformador, um precursor de Lutero.
A exegese marcionita iniciava com a discordância entre os Testamentos, fundamentada numa leitura intencional da Epístola aos Gálatas.
Paulo era considerado o único apóstolo verdadeiro, superior aos “superapóstolos” de Jerusalém.
A antítese paulina entre Fé e Lei tornou-se a base para a oposição entre dois Deuses e dois Mundos.
Marcion realizou uma operação filológica e lógica para purificar os textos, eliminando contradições.
O Antigo Testamento era um documento histórico sobre o mundo inferior e seu deus criador, um tirano inferior que promulga a lei da vingança.
A revelação do Deus bom traz uma “nova aliança”, “nova vida” e novos valores, invertendo os do mundo velho.
A antropologia de Marcion é profundamente pessimista: a humanidade, criada pelo Demiurgo a partir de matéria inferior, é a criatura mais infeliz.
A revelação do Deus bom é totalmente gratuita e imerecida.
Cristo sofreu, morreu e desceu ao inferno, salvando aqueles que, pelo código do Demiurgo, mereciam tormentos, mas não os patriarcas e profetas justos para o Demiurgo.
A ética marcionita era heroica, encrática, com hierarquia funcional, ascetismo rigoroso e acesso das mulheres ao magistério.
A igreja marcionita foi uma forte concorrente da Católica no século II, declinando no Ocidente no século IV e sendo absorvida pelo Maniqueísmo. No Oriente, sobreviveu em comunidades rurais até o século V.