A crença na existência dos Inferi, que se mantinha nas camadas profundas do povo, apesar de combatida e em parte suplantada por outras doutrinas, devia receber uma força renovada com o renascimento do platonismo, que considerava como inspirados os escritos do divino Mestre.
Em vários de seus diálogos, Platão falava com tanta precisão da transferência das almas para as entranhas da terra que mesmo a sutileza de seus intérpretes tardios tinha alguma dificuldade em dar ao texto outro alcance
Os comentadores se dedicaram a defender a doutrina do sábio infalível refutando as objeções de seus adversários; os Estoicos haviam sustentado que a alma, sendo um “sopro ardente”, tinha uma tendência natural a se elevar nos ares e não podia se afundar no solo
Porfírio objetou que, ao se abaixar através da atmosfera, a alma se impregnava de sua umidade e assim se tornava mais pesada; e se durante sua passagem no lodo do corpo se havia carregado de uma lama puramente física, sua densidade tornava-se tal que podia ser arrastada nos abismos tenebrosos da terra — Porfírio, Sententiae ad intelligibilia, XXIX, 1-2
Para Proclus, que se proclama o fiel intérprete de Platão, a alma após a morte é julgada em algum lugar entre o céu e o globo; se é digna, gozará nas esferas celestes de uma vida bem-aventurada; se ao contrário mereceu penas, será relegada sob a terra — Proclus, In Rempublicam Platonis, II, p. 131, 20-132, 13 Kroll
Precisando alhures seu pensamento, Proclus declara: “Os diversos lugares do Hades e os tribunais subterrâneos e os rios cuja existência Homero e Platão nos ensinaram não devem ser considerados como vãs imaginações ou maravilhas fabulosas. Mas assim como as almas que vão ao céu são distribuídas em diversas e variadas moradas para ali repousar, assim se deve crer que para aquelas que ainda têm necessidade de um castigo abrem-se lugares subterrâneos onde se infiltram em quantidade as emanações dos elementos supra-terrestres. São eles que se chamam 'rios' ou 'correntes'. Lá também classes diversas de demônios exercem seu império, uns vingadores, outros punitivos, outros purificadores ou por fim justicieiros. Nessa morada, a mais afastada dos deuses, os raios do sol não penetram, e ela está repleta de toda a desordem da matéria. Lá se encontra, guardada pelos demônios que asseguram a justiça, a prisão das almas culpadas, enterradas sob a terra” — Proclus, In Rempublicam, I, p. 121, 23-122, 15 Kroll