As crenças tradicionais da religião dionisíaca foram purificadas, ao menos para os devotos esclarecidos, quando a filosofia fez prevalecer a doutrina da imortalidade astral: o simpósio do Hades foi transportado para o céu.
Os pitagóricos foram provavelmente os primeiros a operar essa transferência: usando de uma alegoria, ensinavam que aquele que seguiu a rota íngreme da virtude, chegado ao cume da árdua subida, podia se descansar de suas penas e obter o salário de seu labor, participando na claridade serena do éter do banquete dos bem-aventurados.
A seu exemplo, Platão, num mito do Fedro, fala das almas imortais que escalam a encosta árdua do firmamento para tornar-se, no cume da abóbada celeste, os comensais dos deuses.
A admissão ao banquete olímpico, que havia sido durante muito tempo o privilégio excepcional de alguns heróis, tornou-se assim o prêmio acordado à virtude de todas as almas piedosas; uma quantidade de estelas funerárias que opõem ao labor terrestre do defunto, figurado na parte inferior da pedra tumular, o repas que orna a parte superior, colocam assim em relação os méritos que o homem de bem adquiriu com o gozo tranquilo que será a retribuição.
O mito do Fedro assegurou a persistência da noção do banquete celeste nos últimos Neoplatônicos; mas estes davam necessariamente da embriaguez das almas convidadas uma interpretação espiritual, explicando-a como o arrebatamento da razão penetrada pela inteligência divina.
O cristianismo deveria herdar da concepção pagã assim purificada, e imaginar o banquete celeste na quietude constante da luz eterna, onde uma alegria perpétua regozijava convivas imortais na doce esplendor do jardim das beatitudes.