Na falta de um livro contendo o “discurso sagrado” (hieròs lógos) comunicado aos mystes dos deuses alexandrinos, pode-se fazer alguma ideia das especulações dos sacerdotes egípcios helenizados pelos fragmentos da literatura hermética — aquela cuja autoria Hermes-Thoth, Mestre de toda sabedoria, passava por ter.
Essas obras não pertencem a uma seita praticando um culto e impondo a seus adeptos iniciações sacramentais, mas pretendem ensinar uma doutrina esotérica revelada confidencialmente por um mestre a alguns discípulos; são produtos de Mistérios literários.
Se se considerasse esses escritos herméticos de um ponto de vista unicamente filosófico, não se poderia lhes acordar senão um valor muito medíocre: um ecletismo confuso amalgama sem crítica doutrinas heterogêneas; o dualismo platônico se combina maleasamente com o panteísmo estoico e com a religiosidade do neopitagorismo.
Mas essas obras abstrusas se impõem à atenção pela fervorosa religiosidade que as anima: não pregam uma filosofia, mas uma teologia; seu objetivo essencial é assegurar a salvação pela ciência — pois conhecer Deus é o meio de se unir a ele.
A alma humana ou ao menos a razão é uma parcela destacada do Nous divino, que aspira a se reunir a ele; mas ela está encerrada num corpo que a corrompe e a mancha, e a fraqueza de nossos órgãos limita nossa percepção da divindade.
Os puros, os perfeitos (téleioi), os religiosos (religiosi), que formam uma elite restrita, podem somente escapar a essa restrição espiritual, e se libertam ao mesmo tempo da escravidão onde o Destino, determinado pelos astros, mantém o resto dos homens.
Após sua morte, essas almas piedosas retornarão à fonte celeste de que são oriundas; somente os Eleitos que o merecem por sua piedade chegam às esferas estreladas e, despojando-se, como de vestes, de suas paixões, irão, essências ígneas, repousar na claridade do éter.