Plotino conhecia as cerimônias secretas celebradas nos templos de sua pátria e faz frequente alusão ao que se realizava à sombra dos santuários, gostando de tomar comparações dos mistérios e de se servir de sua linguagem.
Em certo sentido, a sublimidade de seu misticismo é a transposição filosófica da devoção contemplativa e da adoração muda dos fiéis de Ísis.
A convicção de que a visão da divindade diviniza — e que aquele a quem um deus se dignou manifestar-se nesta terra encontra nessa aparição luminosa uma garantia de sua felicidade no além — precedeu no paganismo a doutrina neoplatônica segundo a qual a visão beatífica conduz à absorção libertadora no seio de Deus.
Como todos os seus contemporâneos, Plotino acreditava nas epifanias dos deuses, na “autópsia” que nos templos permite vê-los face a face, e ele mesmo aproximava disso a contemplação filosófica do Belo absoluto.
Contudo, Plotino não é uma espécie de hierofante superior que realizaria plenamente o que os cultos positivos haviam feito pressentir por sua pregação: opõe-se resoluta mente a eles e se emancipa de sua tutela.
A recompensa ideal à qual pode aspirar o sábio é uma intuição direta, onde a alma penetrada de amor se identifica, inconsciente, com o Um.
A intervenção de um sacerdote não é necessária para que o êxtase arrebate a alma, nem o socorro de um deus psicopompo para que ela atinja e ultrapasse os limites do mundo sensível.
A razão escapa aos sortilégios da magia, bem como à influência das estrelas, permanecendo indiferente às preces recitadas nos templos.
A espiritualidade altiva do grande metafísico desdenhava todo cerimonial ritual, permanecendo intelectualista e imbuída de racionalismo grego: o salvation não é obtido pela intercessão de um mediador, nem a verdade revelada pela boca dos mistagogas.
Amélio, que celebrava devotamente cada uma das festas do calendário, quis fazer Plotino assistir a algum sacrifício; o Mestre respondeu com altivez: “São os deuses que devem vir a mim, não eu que devo ir até eles”, significando assim que a alma devia aguardar em retiro solitário e recolhimento silencioso a visita da divindade.