Escada — Os antigos egípcios acreditavam que o firmamento era tão próximo das montanhas do mundo que das cumes terrestres era possível subir até ele com o auxílio de uma escada, e os textos das pirâmides mostram os deuses ajudando o rei defunto a galgar os últimos degraus.
Ideias semelhantes encontram-se alhures, tanto na China quanto na Europa; um sacerdote-rei de uma tribo trácia mandou amarrar grandes escadas de madeira umas às outras para se queixar a Hera da desordem de seus súditos.
Embora a astronomia tivesse, na época romana, relegado as estrelas a uma distância incomensurável no espaço, a escada sobrevivia como amuleto ou símbolo, e pequenas escadas de bronze continuavam a ser depositadas em túmulos na fronteira do Reno.
Nos mistérios de Mithra, uma escada formada de sete metais diferentes, coroada de um oitavo degrau, era o emblema da ascensão da alma pelas esferas dos planetas até a das estrelas fixas, cada metal correspondendo a um dos astros errantes.
Fílon de Alexandria e depois dele Orígenes interpretam da mesma forma a escada que Jacó viu em sonho, como sendo a atmosfera através da qual sobem e descem as almas liberadas de seus corpos; e o sonho bíblico do patriarca assegurou longa persistência à função escatológica atribuída a um modesto aparelho doméstico.
Nos Atos de santa Perpétua, a primeira visão da prisioneira foi a de uma longa escada atingindo o céu, guarnecida de gládios cortantes e guardada por um dragão; a santa sobe e encontra no topo um vasto jardim do paraíso onde um ancião branco trai suas ovelhas para milhares de Eleitos vestidos de branco.
O monge João Clímaco, que viveu no século VI, deve seu nome a uma obra inspirada no sonho de Jacó, tratando dos trinta degraus — vícios a evitar, virtudes a praticar — pelos quais o cristão pode alcançar a morada dos Eleitos; os manuscritos ilustrados mostram os monges escalando a escada mística, enquanto outros, arrancados no meio da subida por demônios alados, são precipitados na garganta aberta de um dragão representando o Inferno.
Desde a antiguidade esse emblema de salvação foi adotado como filactério pela magia, que o conservou através dos séculos, e ainda hoje uma pequena escada se vende em Nápoles como amuleto contra a jettatura, o mau-olhado.