O mito da fênix permite estender as explicações de
Detienne sobre a defasagem entre a função positiva dos aromas como incensos e a negativa dos mesmos aromas como perfumes.
A fênix é na escala animal o que são os aromas na hierarquia das plantas: um ser solar que tem seu ninho no ponto mais alto; acompanhando cada dia o astro de fogo, ela escapa à condição mortal sem desfrutar da imortalidade dos deuses — renasce perpetuamente de suas cinzas.
Das cinzas do pássaro que no término de sua longa existência se consome num ninho-braseiro de substâncias aromáticas nasce um pequeno verme, nutrido de umidade, que por sua vez se tornará uma fênix.
A vida incandescente da fênix segue um curso circular que faz passar o pássaro dos aromas, mais próximo ao sol do que a águia das montanhas, ao estado de verme da putredine — mais ctônico ainda do que a serpente ou o morcego.
Na lógica do mito, as essências perfumadas aparecem capazes de conjugar a terra e o céu, os homens e os deuses, na medida em que traduzem no código botânico e zoológico uma forma de vida que se renova por si só, sem necessidade de uma conjunção entre sexos opostos — e portanto sem matrimônio nem procriação.
No sacrifício os aromas são marcados com o signo positivo porque estão orientados em direção da idade do ouro; no matrimônio os aromas são orientados em direção inversa — presidindo à atração sexual, consagram dentro da própria instituição matrimonial a ruptura com a idade do ouro, a dualidade dos sexos, a necessidade de acoplamento, geração e nascimento, e correlativamente do envelhecimento e da morte.
Pandora é um mal, mas um mal tão belo que os homens, no fundo do coração, não podem deixar de amá-la e desejá-la — e a sedução erótica reveste no mundo dos homens a figura equívoca de Pandora, dom envenenado que Zeus lhes envia como contrapartida do fogo, como avesso do bem que Prometeu fraudulentamente lhes forneceu.
Como Pandora, a sedução é uma realidade dupla e ambígua: por aquilo que imita, é de essência divina; mas na sedução erótica é um impulso desviado, voltado a uma falsa imagem do divino, a uma aparência mentirosa de beleza que dissimula uma realidade completamente diferente — a bestialidade feminina.
O problema, assim, não fica resolvido mas apenas deslocado: por que os aromas, sendo o que são no sacrifício, patrocinam também a sedução erótica? A resposta vem de Hesíodo, nas duas versões que oferece do mito da fundação do sacrifício cruento por Prometeu.
Sacrifício e matrimônio se justificam religiosamente — o sacrifício pela oferta dos aromas que assim retornam à divindade; o matrimônio pelas restrições muito rigorosas que impõe à atração sexual provocada pelos perfumes; e a dupla abstenção dos gregos — de não sacralizar nem a abstinência sexual completa nem a atividade erótica — é o que garante ao matrimônio sua legitimidade incontestada ao centro do sistema religioso, ao lado dos cereais.