No terreno da mântica — o único objeto do desejo hermaico —, é Apolo que comanda o jogo, um Apolo senhor de truques cuja inteligência astuciosa, às vezes desconhecida, eclode nas próprias práticas de uma adivinhação instalada ao pé do Parnasso.
Apolo revela — e talvez seja a primeira vez — que entre os homens sabe ser favorável a um e nefasto a outro; ora favorável, ora “deletério” — dēlēsomai —, a seu bel prazer ele “faz girar” — peritropéōn — as tribos dos homens; a “peritropie” de Apolo, que se diz alhures “inteligência astuciosa” — mētis —, ecoa a polytropie de Hermes, como a politecnia do polvo e da sépia.
Antes de dar passagem ao consultante do oráculo pítico, Apolo o adverte: “Em verdade, tirarão proveito de minha voz profética aqueles que vierem confiando no grito e no voo de pássaros de presságio seguro — oiônoi —; não os enganerei. Mas quem, confiando em pássaros mentirosos, quiser, contra minha vontade, interrogar o oráculo e saber mais do que os deuses sempre vivos, esse, declaro: avança por um caminho vão, enquanto eu receberei as oferendas que ele trouxe.”
Apolo revela a Hermes as Destinadas-Moirai ou Veneráveis-Semnai, três Virgens orgulhosas de suas asas rápidas, uma farinha leve e brilhante polvilhando sua cabeça, aninhadas ao pé das gargantas do Parnasso; elas lhe ensinaram a adivinhação “à parte” — apaneuthe — desde quando ele guardava rebanhos; quando nutridas de mel louro e tomadas de impulso profético, aceitam voluntariamente dizer a Verdade-Alētheia; quando privadas do doce alimento dos deuses, tentam extraviar ou se comprazem em enganar girando entre si.
Esse oráculo de iniciação ilumina a complexidade do deus de Delfos e de sua obliquidade de Loxias — entre engano, astúcias e verdade de mel e de voo de abelhas em enxame.
Apolo declara a Hermes: “Doravante, concedo-te este oráculo. Alegra-te em interrogá-lo com toda sinceridade, e, se conheces algum mortal, ele virá se pôr à escuta, muitas vezes mesmo de tua voz oracular — omphē; se, todavia, a sorte — tychē — lhe sorrir.”
O envio sem recurso: “Guarda aqui estes privilégios, nobre Hermes, e cuida dos rebanhos” — o ladrão de bois é devolvido aos pastos agrestes e, para toda adivinhação futura, seu irmão Pítio lhe concede um oráculo menor, bom para galoto em vadiagem, claramente descrito como marginal e definitivamente obsoleto.
O poeta em encarregado do elogio de Hermes não apenas não lhe devolve a palavra, mas acrescenta mais, falando de um deus cujos benefícios são realmente míseros — um deus que sem trégua na sombra da noite engana as raças de mortais.
Há uma homologia entre os pássaros equívocos da préconsulta para a verdadeira adivinhação e as Virgens Abelhas do pequeno vaqueiro de outrora — homologia que parece indicar que haveria lugar em Delfos para uma mântica de segunda ordem, ainda dependente do poder de Apolo nos presságios ambíguos onde o pequeno deus, batizado “Presságio Seguro”, parecia ter ganho uma tênue principalidade.