A pantera de que aqui se fala não reconhece imediatamente Dionísio como senhor — ela pertence a um bestiário em que a caça, a sedução e o matrimônio interferem por meio dos mitos entrecruzados de Atalanta e de Adônis.
Atalanta foge do matrimônio, recusa os dons de Afrodite e busca, numa atividade fundamentalmente masculina e guerreira, o refúgio que a mantenha o mais longe possível do desejo amoroso e do estado conjugal.
A prova de velocidade que Atalanta impõe aos pretendentes obstinados inverte o modelo: os machos, em vez de rivalizar em ardor para alcançar ao fim da pista a mulher desejada, são forçados à fuga, nus e indefesos, sob a ameaça da mulher cobiçada que os caça como lebres medrosas e corços tímidos.
Adônis, ao contrário, abandona-se à paixão excessiva que o liga a sua senhora no meio das florestas, excluindo-se do mundo viril de quem enfrenta as bestas ferozes; o comportamento cinegético que escolhe o leva a confundir a arte de perseguir a caça com a arte de agradar e de seduzir.
A caça praticada por Adônis é a continuação da sedução, exercida com os mesmos meios e as mesmas armas — como o atesta sua cumplicidade com a pantera, o único animal dotado pela natureza de um odor agradável que lhe permite ao mesmo tempo atrair e capturar suas vítimas.
O encontro entre a caçadora que foge do matrimônio e o caçador sedutor efeminado se transforma num confronto em que a transformação de Atalanta em besta feroz, detestada por Afrodite, aparece solidária com a morte de Adônis.
Se Atalanta, a despeito das astúcias de Afrodite, se vê confirmada em sua vocação à caça e em sua recusa do matrimônio e efetivamente integrada no mundo das feras, a transformação da jovem em leoa frígida denuncia, em seu aparente triunfo, a carência que a aflige.
Esses relatos míticos traçam um espaço liminal aberto à transgressão dos comportamentos sexuais dominantes, mas em que só pode se fixar a impotência de uma subversão eficaz das relações entre os sexos tal como as prescreve a sociedade.