A Sofística e a Retórica, que aparecem com o surgimento da cidade grega, são ambas formas de pensamento centradas no ambíguo — porque se desenvolvem numa esfera política que é o mesmo mundo da ambiguidade, e porque se definem como os instrumentos que formulam a teoria e a lógica da ambiguidade no plano racional e permitem agir com eficácia nesse mesmo plano.
Os primeiros sofistas afirmam-se como especialistas da ação política — são homens que possuem uma espécie de sabedoria próxima à dos Sete Sábios, uma habilidade política e uma inteligência prática
Mnesífilo, um desses homens da praxis, aparece na história grega à véspera de Salamina com a máscara do sábio conselheiro dos momentos difíceis — num momento decisivo, num verdadeiro Kairos, ajuda Temístocles a dominar uma situação móvel, fugidia e ambígua
O sofista é um tipo de homem muito próximo do político, daquele que os gregos chamam o prudente — phronimos —, tendo em comum o mesmo campo de ação e uma mesma forma de inteligência
O campo do político e do sofista se encontra num plano de pensamento situado nos antípodas do que os filósofos, desde Parmênides, reivindicam como próprio — é o plano da contingência, a esfera do kairos, um kairos que não pertence à ordem da episteme mas à da doxa
A retórica é uma prática que exige um ânimo dotado de penetração e de audácia, naturalmente apto ao comércio dos homens — se desdobra no mesmo âmbito dos assuntos humanos, âmbito onde nada é estável, móvel, duplo e ambíguo
Para o sofista, o campo da palavra é delimitado pela tensão dos dois discursos possíveis sobre cada coisa, pela contradição das duas teses a propósito de cada problema — o sofista aparece como o teórico que logiciza o ambíguo e faz dessa lógica o instrumento capaz de fazer triunfar o menor sobre o maior
Platão tem razão quando considera sofistas e retores mestres de ilusão, que em vez do verdadeiro apresentam aos homens ficções, simulacros e ídolos fazendo-os passar pela realidade — sua arte suprema é dizer pseudea etymoisin homoia
Para Górgia, o discurso não revela as coisas sobre as quais versa — é um grande senhor de corpo minúsculo e invisível, semelhante ao Hermes criança do Hino Homérico armado de uma varinha mágica; a potência do logos é ilimitada — traz o prazer, afasta os afãos, fascina, persuade, transforma por encantamento; mas nesse plano o logos nunca aspira a dizer a Aletheia
Clemente de Alexandria escreveu, ao final de uma exposição sobre os fins da sofística, da retórica e da erística: em tudo isso a Aletheia não entra; Platão afirma que nos tribunais ninguém se preocupa com a Aletheia, mas apenas com a persuasão