A Musa, invocada pelo poeta no início de um canto, tem a função de fazer conhecer os acontecimentos do passado, e a palavra do poeta, tal como se desenvolve na atividade poética, é solidária a duas noções complementares — a Musa e a Memória —, duas potências religiosas que delineiam a configuração geral que confere à Aletheia seu significado real e profundo.
Passagem invocada ao longo do texto: “E agora dizei-me, Musas, que habitais o Olimpo — pois vós, vós sois deusas: em toda parte presentes, vós sabeis tudo; nós, ao contrário, não ouvimos senão um rumor e não sabemos nada — dizei-me quais eram os guias, os chefes dos Dânaos. A menos que as filhas de Zeus que porta a Égide, as Musas do Olimpo, não se recordem elas mesmas daqueles que haviam vindo a Ílion, eu não poderia dizer a multidão, não poderia dar os nomes, mesmo que tivesse dez línguas, dez bocas, uma voz que nada quebra, um coração de bronze em meu peito”
A Musa é uma das potências religiosas que superam o homem no momento mesmo em que ele sente em si a sua presença
No plano profano, o nome comum musa corresponde à Musa do panteão grego, assim como metis corresponde a Métis, esposa de Zeus, e themis corresponde à grande Têmis, outra esposa de Zeus
Numerosos testemunhos de época clássica permitem pensar que musa, nome comum, significa a palavra cantada, a palavra ritmada
Filão de Alexandria transmite um discurso antigo que narra como o Criador, após concluir o mundo, soube que faltava apenas a palavra laudatória, e então gerou a estirpe das cantoras plenas de harmonia, nascidas da Virgem Memória — Mneme —, a quem o vulgo, alterando o nome, chama Mnemósine
Os nomes das filhas da Memória desdobram uma teologia da palavra cantada: Clio connota a glória das grandes façanhas transmitidas às gerações futuras; Talia alude à festa como condição social da criação poética; Melpômene e Tersícore evocam música e dança; Polímnia e Calíope exprimem a rica diversidade da palavra cantada e a voz poderosa que dá vida aos poemas
As mais antigas epícleses das Musas remontam a três figuras veneradas num antiquíssimo santuário no Hélicon — Melete, Mneme e Aoide —, cada uma portando o nome de um aspecto essencial da função poética: Melete indica a disciplina do aprendizado do ofício de aedo; Mneme é a função psicológica que permite recitar e improvisar; Aoide é o produto final, o canto épico
Cícero reporta uma nomenclatura com quatro Musas — Arche, Melete, Aoide, Thelxínoe —, em que Arche é o princípio originário que a palavra do poeta busca desvelar, e Thelxínoe é a sedução do espírito, o encantamento que a palavra cantada exerce sobre os outros