O segundo traço que o episódio da Ilíada esclarece diz respeito ao horizonte temporal da métis — sua ação se exerce em terreno movente, em situação incerta e ambígua, onde a cada momento as coisas podem se virar para um lado ou outro.
O homem dotado de métis se mostra, em relação ao seu concorrente, ao mesmo tempo mais concentrado num presente do qual nada lhe escapa, mais tenso para um futuro de cujos aspectos já maquinou diversas possibilidades e mais rico da experiência acumulada no passado.
Esse estado de premeditação vigilante é expresso pelo grego com as imagens da espreita e da tocaia — o homem em alerta espia o adversário para golpear no momento escolhido.
Nestor previne Antíloco: “Tal outro, que conduz cavalos menos velozes, sabe mais de um truque; não tira os olhos do marco; faz a curva bem fechada; não esquece de segurar as rédeas de couro; conduz sem falhar, com o olho fixo em quem o precede.”
O verbo grego que designa essa espreita é termo técnico de pesca, de caça e de guerra — o autor do Escudo hesiódico o emprega para falar de um pescador agachado à espreita, pronto a lançar sobre o peixe a armadilha de sua larga rede.
A métis é rápida, pronta como a ocasião que deve ser agarrada ao voo; mas é densa e nutrida — carregada de todo o peso da experiência adquirida, e não leviana.
Antíloco diz a seus cavalos: “Apressai-vos ao máximo. Encarrego-me de encontrar o meio e a ocasião, se a pista se estreitar, de me esgueirar à frente do Atrida, sem deixar passar o instante.”
O conceito de kairós — a ocasião — está presente no texto da Ilíada: é uma ocasião que, longe de surpreender Antíloco, lhe fornece o meio de realizar o plano que concebera desde o início.
Quando Píndaro celebra a habilidade do auriga Nicomaco, glorifica-o por ter sabido “dar rédeas aos cavalos no momento certo.”
Dos dois cavalos divinos que compõem a parelha invencível de Adrasto, um chama-se Areion, que marca sua excelência; o outro chama-se Kairos — não basta ter os cavalos mais velozes; é preciso saber impulsioná-los no momento decisivo.
Ao fim da corrida, Menelau acusa Antíloco de dolo e exige procedimento de juramento; o jovem reconhece seus erros e alega a irreflexão da juventude, que torna “leve” a métis do adolescente: “Sabes o que são os excessos do jovem? O espírito nele é rápido e a métis é leve.”
A experiência do ancião lhe confere visão mais extensa: carregado de todo o saber acumulado ao longo dos anos, pode explorar antecipadamente os múltiplos caminhos do futuro, pesar o prós e os contras.
Menelau exige que se faça vir o velho Príamo junto de seus filhos jovens: “O espírito dos jovens sempre flutua ao vento; quando um velho está com eles, ele vê, aproximando o futuro do passado, como é possível arranjar tudo da melhor forma para ambas as partes.”
Polídamas é capaz de “ver ao mesmo tempo o passado e o futuro” — mas os troianos não o escutam e se rendem ao conselho de Heitor de travar batalha fora dos muros, conselho fatal.
Diomede, ao partir em patrulha noturna, pede um companheiro: “Quando dois homens marcham juntos, se não é um, é o outro, em seu lugar, que vê a vantagem a aproveitar. Sozinho, pode-se ver também, mas a vista é mais curta e a métis mais leve.”
É preciso ser tão experiente quanto Nestor ou dotado de métis extraordinária como Ulisses para ser capaz — segundo a fórmula que Tucídides aplica ao faro político de Temístocles — “de fazer, relativamente ao futuro, a mais justa ideia sobre as perspectivas mais extensas e prever da melhor forma as vantagens e os inconvenientes dissimulados no invisível.”
Prometeu — aquele que reflete antecipadamente — tem por irmão gêmeo seu duplo e contrário Epimeteu — aquele que compreende depois; a previsão humana é apenas o outro aspecto de sua ignorância radical do futuro.