A permanência de um vocabulário e, através dele, das imagens, dos temas e dos modelos da métis, encontra explicação no fato de que, de Homero a Opiano, ao longo de uma tradição que passa por Hesíodo, os líricos, os trágicos, Platão e Aristóteles, certos dos termos mais estreitamente associados à métis parecem ter uma aplicação privilegiada aos domínios da caça, da pesca e da guerra.
No canto XII da Odisseia, dólos é a palavra utilizada para designar a isca ou o anzol do pescador.
Em Hesíodo, ao término da luta opondo a métis de Zeus à de Prometeu, a última astúcia que consagra a superioridade do rei dos deuses sobre o Titã é a criação de Pandora, a isca à qual Epimeteu e todos os homens se deixarão pegar — Pandora é um dólos aipùs amechanos, uma armadilha abrupta e sem saída.
Quando Ulisses fechou sobre os pretendentes a armadilha que lhes tendera, ele é o pescador puxando a rede em que se debatem os peixes.
Píndaro fala explicitamente da métis da raposa; Íon de Quios descreve a téchnē do ouriço.
No Agamêmnon, Ésquilo acumulou de forma obsedante os temas de caça e de pesca: o rei dos gregos é o caçador que persegue a cidade de Príamo para lançar sobre ela suas redes, mas que cairá no dia marcado naquelas que a métis de sua esposa terá tecido para apanhá-lo por sua vez.
Sófocles e Eurípides, evocando a arte do caçador e do pescador, sublinham as astúcias — mechanaí — que inventa seu espírito engenhoso, sua inteligência de múltiplas facetas — poikilía prapídōn.
Quando Platão pinta o retrato de Eros, ele o descreve como herdeiro de Métis, sua avó, das qualidades que fazem dele o caçador fora de série — thereutès deinós —, sempre a urdir alguma astúcia — aeí tinas plékōn mechanas.
Platão define a arte do sofista — que por seus prestígios e artifícios retóricos faz com que o discurso fraco supere o forte — em termos de caça e de pesca.
Também alto que se possa remontar, o vocabulário da métis a associa a técnicas cujo vínculo com a caça e a pesca é manifesto: tece-se, urde-se, trança-se, combina-se uma métis ou um dólos — huphaínein, plékein, tektaínesthai — como se tece uma rede, como se trança uma nassa, como se combina uma armadilha de caça.
Essa experiência parece ter marcado profundamente todo um plano do pensamento grego: as características essenciais da métis — flexibilidade e polimorfía, duplicidade e equívoco, inversão e reversão — implicam certas valores atribuídos ao curvo, ao flexível, ao tortuoso, ao oblíquo e ao ambíguo, por oposição ao reto, ao direto, ao rígido e ao unívoco.
Esses valores culminam na imagem do círculo — laço perfeito porque inteiramente revertido e fechado sobre si mesmo, sem início nem fim, nem anterior, nem posterior, e que sua rotação torna ao mesmo tempo móvel e imóvel, movendo-se simultaneamente num sentido e no outro.
No tratado das Mecânicas, o Pseudo-Aristóteles explica o efeito surpreendente das máquinas — que fazem o menor e o mais fraco dominar o maior e o mais forte — pelas propriedades do círculo: unindo em si, por sua curvatura contínua e fechada sobre si mesma, vários contrários, fazendo-os nascer um do outro, o círculo aparece como a coisa mais estranha, mais desconcertante do mundo — thaumasiótaton —, possuindo um poder que desconcerta a lógica ordinária.
Aristóteles, na História dos Animais, nota que as rãs marinhas, os mais lentos dos peixes — bradútatoi —, encontram o meio de devorar os taínhas que representam, no mar, o mais rápido dos peixes — tòn táchiston.
Os historiadores do pensamento antigo, preocupados em sublinhar, através das obras dos grandes filósofos, o que fez a originalidade do helenismo — uma lógica da identidade, uma metafísica do ser e do imutável —, tenderam a negligenciar esse outro aspecto da inteligência grega, magnificado no mito pela divinização de Métis, primeira esposa de Zeus, deusa sem cujo socorro o rei dos deuses teria sido incapaz de estabelecer, exercer e manter sua supremacia.
Para se orientar no mundo da mudança e da instabilidade, para dominar o devir jogando de astúcia com ele, a inteligência deve, aos olhos dos gregos, abraçar em certa medida sua natureza, revestir suas formas — como Menelau se deslizando na pele de uma foca para triunfar das magias ondulantes de Proteu.
A inteligência astuciosa, cujo modelo a caça e a pesca puderam fornecer na origem, transborda largamente esse quadro — como mostra, em Homero, o personagem de Ulisses, encarnação humana da métis: estratagemas do guerreiro, arte do piloto, espertezas verbais do sofista, engenho do banqueiro e do comerciante, prudência avisada do político, segredos de ofício dos artesãos.
A métis preside a todas as atividades em que o homem deve aprender a manobrar forças hostis, poderosas demais para serem diretamente controladas, mas que se podem utilizar apesar delas, sem jamais enfrentá-las de frente, para fazer chegar por um viés imprevisto o projeto que se meditou.