O leitor tem o direito de perguntar o que é esse domínio de estudos, onde situá-lo na sociedade e na cultura gregas e a quais disciplinas pertence a abordagem adotada, perguntas cuja resposta não é simples.
A realidade investigada se projeta sobre uma pluralidade de planos: teogonias, metamorfoses de divindades aquáticas, saberes de Atena e Hefesto, de Hermes e Afrodite, de Zeus e Prometeu.
Abrange ainda armadilhas de caça, redes de pesca, artes do cesteiro, do tecelão e do carpinteiro, a maestria do navegador, o faro do político, o olhar experiente do médico.
Inclui as astúcias de personagens tortuosos como Ulisses, as metamorfoses da raposa, a polimorfía do polvo, os jogos de enigmas e adivinhações, o ilusionismo retórico dos sofistas.
A investigação percorre o universo cultural grego desde as mais antigas tradições técnicas até a organização do panteão.
O trabalho é, sob certos aspectos, um estudo de vocabulário — análise do campo semântico da métis, de sua coerência e de sua notável estabilidade ao longo do helenismo.
Toca a história das técnicas e da inteligência aplicada nos saberes artesanais.
Comporta capítulos inteiros de análise mitológica e de deciframento das estruturas do panteão.
Insere-se na psicologia histórica, pois busca apreender uma grande categoria do espírito em todos os estratos da cultura grega.
Trata-se de uma categoria mental, não de uma noção — não é possível fazer uma história das ideias nesse campo.
As formas de inteligência astuciosa nunca são objeto de formulação explícita, de análise conceitual ou de exposição teórica sistemática.
Não existem tratados da métis como existem tratados lógicos, nem sistemas filosóficos construídos sobre seus princípios.
A presença da métis no universo mental dos gregos pode ser decifrada nas práticas sociais e intelectuais, mas não está dada em nenhum texto que exponha de antemão seus fundamentos.