Os sistemas politeístas — na Índia, no Japão, na África e nas culturas antigas como
Egito, Mesopotâmia, mundo grego ou asteca — aguardam os analistas comparatistas dispostos a inventariar todas as posições ocupadas por uma divindade, um gênio ou uma potência, e sobretudo decididos a se entregar ao jogo da experimentação.
Convencido de que as potências devem se definir pelo conjunto dos lugares que podem postular, o analista suspende os traços individuados de seus gênios ou divindades para focalizar em objetos, gestos e situações que utilizará como reativos entre as potências — ora emparelhadas em casais ou grupos constituídos, ora combinadas para a ocasião da manipulação.
O essencial é fazer reagir uma potência, isolada ou agenciada, a uma série de objetos concretos, de gestos significativos ou de situações extraídas do espaço cultural de uma sociedade politeísta — simplesmente para ver o que acontece: fazer reagir para descobrir um aspecto despercebido, um ângulo insólito, uma propriedade oculta.
O jogo vale a pena: o comparatista experimentador se dá assim a liberdade e o prazer de desmontar e remontar lógicas parciais de pensamento — lucro pleno para o antropólogo e seu companheiro, o historiador.
O texto foi redigido entre Johns Hopkins e Pisa, em 1998–1999.