Loki é um dos mais singulares entre os deuses escandinavos, tendo desconcertado, esgotado ou extraviado sucessivamente todas as escolas de exegetas.
As principais aporias e antinomias que convergem sobre esse personagem podem ser assim enumeradas:
Loki é um deus importante, presente em grande número de relatos, e contudo, tanto quanto se sabe, era no tempo do paganismo um deus sem culto — isto é, um deus sem função — e nenhum lugar em nenhum país escandinavo recebe seu nome
Coloca-se então a questão: trata-se de uma figura propriamente religiosa, de um deus autêntico, ou antes de uma personagem de conto, um tipo folclórico introduzido posteriormente na mitologia?
Se Loki for excluído da mitologia, torna-se impossível manter a forma tradicional de muitas histórias de Ódinn e de Thórr — as divindades menos contestáveis enquanto “divindades de culto”
No início ou no curso de certos relatos, Loki parece manter relações especiais com Thórr; outros pesquisadores notam que suas relações com Ódinn são mais íntimas; e vários relatos em que Loki desempenha papel essencial não são centrados nem em Ódinn nem em Thórr
Loki é ao mesmo tempo o amigo e auxiliar mais precioso dos deuses e seu pior inimigo; coloca-se a questão de saber se essas duas atitudes são igualmente primitivas, ou se o “mau Loki” surgiu apenas ao cabo de uma longa evolução
O risco de tal perspectiva cronológica é expor-se a toda sorte de amputações arbitrárias, dado que o mau Loki é mais abundantemente atestado do que o bom
Amigo ou inimigo dos deuses, confidente engenhoso ou formidável farsante, Loki move-se à vontade na pequena mitologia; e, bruscamente, em certos mitos — o assassinato de Baldr, seu próprio suplício, sua epifania no fim do mundo — adquire uma grandeza quase cósmica, incomensurável com o trasgo de tantos relatos cômicos
Levanta-se a hipótese de modelos cristãos — ou iranianos — que teriam imposto ao pequeno deus maligno escandinavo uma transfiguração satânica ou ahrimaniana; a história da exegese dos mitos escandinavos está, porém, repleta de apostas em que escrituras apócrifas, o cristianismo latino ou celta, a Bíblia ou um dualismo degenerado pretendiam explicar as imaginações “tardias” dos pagãos do Norte
Ainda hoje, camponeses da Noruega, da Escânia, da Dinamarca, das Ilhas Faroe e da Islândia conhecem Loki: fórmulas, provérbios e alguns relatos contêm seu nome; em várias dessas regiões, Loki é associado a pequenos fenômenos naturais e a certos incidentes da vida social
Discute-se se essas marcas são posteriores ao rico Loki da tradição literária medieval, derivadas ou deformadas a partir dela, ou se conservam um Loki mais rústico, mais puro e mais antigo, do qual a tradição literária medieval teria sido apenas um embelezamento, uma amplificação e talvez uma falsificação efêmera