A constatação de Stig Wikander, de 1947, levou a muitas outras descobertas da mesma forma, classificáveis em dois capítulos.
Primeiro, quanto aos personagens: muitos heróis, bons e maus, reproduzem os caracteres e modos de ação de deuses ou demônios dos quais são declarados filhos ou encarnações.
As relações entre vários heróis (parentesco, amizades, ódios) explicam-se como o demarcamento das relações (afinidades, antagonismo) que a teologia define entre os deuses protótipos.
As duas equipes de personagens, com seus inúmeros aliados, fazem na terra o que os deuses e demônios, rivais irremediáveis, fazem no grande mundo e no grande tempo.
Segundo, quanto à intriga do poema: a rivalidade entre deuses e demônios foi captada pelos autores da transposição em seu momento mais patético, um fim e um renascimento do mundo.
Os responsáveis pela literatura védica não transmitiram escatologia, mas outros indianos, cuja mitologia foi transposta pela epopeia, conservaram representações muito mais antigas sobre essa matéria.
O mazdeísmo tem o confronto final entre o Bem e o Mal, e os escandinavos têm a destruição e ressurreição cósmica do Crepúsculo dos deuses.
Uma escatologia vizinha aparece em filigrana no Mahabharata, com correspondências precisas com os fatos escandinavos.
Os inimigos dos Pândava dominam a situação após uma astúcia perversa; a batalha de Kurukshetra termina com a vitória dos “bons”, mas também com o extermínio, salvo raras exceções, dos “maus” e dos próprios “bons”.
O extermínio total dos últimos é impedido por pouco pelo herói no qual o deus salvador Vishnu está encarnado.
Esse salvamento resulta em um verdadeiro renascimento sob o reinado idílico e incontestado do “bom” rei, o mais velho dos Pândava.