Consciência mítica e consciência poética ocupam posição marginal em relação à linguagem comum, mas esse marginalismo é inverso quanto aos seus procedimentos: o mito por déficit linguístico e excesso semântico, a poesia por excesso linguístico e desorientação semântica.
O mito organiza homologicamente um sistema de pensamentos e sentimentos — é cosmologia, teologia e filosofia pré-lógicas
A poesia organiza metaforicamente um sistema de palavras e vocábulos
O limite extremo do mito é o rito, que não utiliza mais símbolos, mas diretamente objetos
O limite extremo da poesia é o momento em que a desintegração semântica atinge o próprio semantema e só integra ao nível do fonema — como no “letrismo” poético
Em línguas como o chinês, onde fonetismo e escrita são independentes, a poesia se reabsorve na pura caligrafia
O mito integra compreensivamente por homologia das relações qualitativas: A está para B, assim como A' está para B'; a metáfora poética opera pela extensão: A é como B, C é como D
A redundância do mito incide sobre a semanticidade; a redundância rítmica do poema incide sobre os caracteres da linguagem
A poesia é incessante descoberta semântica sob as tranquilizantes repetições linguísticas; o mito é repetição absolutamente conservadora de evidências puramente semânticas