A dimensão genética do símbolo conduz a reflexões sobre a formação do símbolo tanto na criança — com Jean Piaget — quanto no reino animal — com os etólogos contemporâneos, em particular Jacob von Uexküll — e ao longo da evolução da espécie.
O que distingue o comportamento do homo sapiens do dos outros animais é que toda sua atividade psíquica é indireta ou reflexiva — não tem a imediaticidade, a segurança nem a univocidade do instinto
A marca anatomofisiológica disso é que um “terceiro cérebro” vem subssumir os dois cérvebros já distintos — o do mamífero (o rinencéfalo, o cérebro límbico) e o do vertebrado (o paleoencéfalo) — resultando no néoencéfalo
Henri Laborit é evocado: pelo “grande cérebro” humano, a agressividade mais “crocodiliana” e a emotividade afetiva mais límbica são interpretadas — dobradas de efeitos reflexivos, representações, fantasias, ideologias — por sua incorporação ao neocórtex
Ernst Cassirer é citado: toda a atividade humana, todo o gênio humano não é mais do que o conjunto de “formas simbólicas” diversificadas — o “universo simbólico” não é menos do que o universo humano inteiro
O progresso da consciência não se confunde com o progresso tecnológico — como fazia Léon Brunschvicg —, mas se integra a uma genética cada vez mais desenvolvida do símbolo
Laborit e Derrida cometem o “pecado de angelismo” de todo o humanismo ocidental ao querer refouler os dois cérebros pré-hominídeos em proveito de uma racionalidade lógico-matemática, esquecendo o caráter agressivo fundamental do primata carnívoro que é o homo sapiens
A famosa carrapata estudada por von Uexküll não “simboliza” — seu universo significativo é feito de três dimensões unívocas; já no cão e nos animais dotados de cérebro, uma mímica postural mostra que o reflexo pode ser distraído de seu funcionamento direto; Adolf Portmann é evocado: os animais também alcançam representações fixas para a espécie — Urbilder
É ao primata “macaco nu” — carnívoro — que cabe a qualidade específica e maciça da simbolização; talvez porque o hiato entre desejo e realidade seja maior no primata humano, condenado à “neotenia” — à imaturidade — do que em seus primos símios
Na criança, o estágio de “imaginação restrita” — denominação proposta na sequência de Jean Château, Piaget e Bernard Andrey — é aquele em que o imaginário se encontra ao mesmo tempo reprimido, estereotipado e refoulado pela grande imaturidade psicoflisiológica; os processos de distanciamento do mundo permitem a reflexão simbolizante, fortemente sobredeterminada pelas instituições de aprendizagem, as valorizações parentais e os jogos
No doente mental, contrariamente à opinião corrente, o imaginário se encontra mutilado — a distância necessária ao símbolo é desorganizada pelas intrusões existenciais
É com a aculturação que aparece plenamente o “atlas do imaginário” — desde a simples simbólica e mítica “derivada” das literaturas até o engajamento no tecido da troca cultural
Georg Wilhelm Friedrich Hegel havia pressentido que é com a arte, a filosofia e a religião que a consciência simbólica atinge seu mais alto nível de funcionamento — paradigmas de alta frequência simbólica cujas figuras podem ser incessantemente “retomadas” — como diria Paul Ricœur —, interpretadas e traduzidas sem que o sentido se esgote
O fenômeno da interpenetração do comportamento natural e dos dados culturais é permitido pela neotenia humana: o cérebro humano nasce imaturo e incompleto; um jovem chimpanzé completa seu crescimento cerebral em doze meses, enquanto o cérebro humano precisa de ao menos seis anos, depois de dez a doze anos para se desenvolver — não há desenvolvimento cerebral sem “educação” cultural
Claude Lévi-Strauss é citado: “os homens sempre pensaram igualmente bem” — o que permite induzir que há uma “natureza” biológica do homo sapiens não vazia, mas cheia de potencialidades que se atualizam em infinitas culturas
A solução culturalista — como as perspectivas hegeliana, spengleriana ou comteana — é deformante por reduzir monoliticamente o pluralismo das soluções culturais a um totalitarismo da cultura; Hegel e Auguste Comte juntam ao monismo um etnocentrismo decidido e não definiram uma cultura como sistema de regulação onde funcionam instâncias contraditórias e compensadoras