6.2 Iconografia

ELIADE, Mircea. Le Yoga. Immortalite et liberte, 1954

YOGA E TANTRISMO

ICONOGRAFIA, “VISUALIZAÇÃO”, NYĀSA, MUDRĀ

1. A iconografia tântrica permite penetrar nos universos regidos pelas divindades e assimilar suas forças sagradas mediante concentração e meditação, exigindo que a imagem divina seja construída interiormente por uma imaginação criadora disciplinada, capaz de despertar as forças interiores com plena lucidez e domínio de si, sem se confundir com fantasias espontâneas ou conteúdos recebidos passivamente do subconsciente.

2. A visualização das divindades depende da disciplina iogue e da observância rigorosa dos modelos iconográficos transmitidos pelos mestres, de modo que a construção mental reproduza os atributos tradicionais, como na imagem de Durgā, cuja aparência terrível, união com Śiva e ornamentação de crânios, serpentes, sangue e restos humanos são prescritas em seus detalhes, em vez de produzidas pela imaginação pessoal.

3. A visualização culmina na identificação com a divindade e no despertar das forças divinas presentes no praticante, ultrapassando o exercício meramente mental, pois, no tantrismo budista, o reconhecimento da vacuidade universal e da ausência de realidade ontológica do universo e de seus deuses deve constituir uma experiência efetiva da verdade, e não apenas a compreensão intelectual de uma ideia.

4. A visualização de Caṇḍamahāroṣaṇa desenvolve-se mediante a construção, no coração, de um maṇḍala solar sobre um lótus e da sílaba hūṃ, cujos raios manifestam mestres, Budas, Bodhisattvas e a divindade, articulando veneração, confissão, compromisso com a iluminação e meditação sobre a vacuidade a uma sequência de sílabas, espadas e imagens divinas interiormente reproduzidas, até que o discípulo se identifique com a divindade.

5. A criação e a dissolução sucessivas de universos e divindades no coração permitem realizar a vacuidade por meio de imagens, encontrando correspondência na meditação jainista influenciada pelo tantrismo, em que o praticante se visualiza sobre um lótus cósmico, incinera simbolicamente os vínculos kármicos, dispersa e lava suas cinzas e finalmente se contempla divinizado, livre dos elementos e venerado pelos deuses.

6. A meditação jainista incorpora uma liturgia mental de estrutura tântrica, com lótus situados no corpo, letras e sílabas místicas visualizadas e mantras recitados, enquanto sua literatura registra práticas de postura, respiração, concentração e meditação que evidenciam uma tendência tântrica sem sexualidade mística, mas marcada pelo interesse em técnicas ascéticas e poderes extraordinários provenientes da antiga tradição indiana.

7. Nyāsa consiste na projeção ritual das divindades e de seus símbolos em diferentes regiões do corpo, por toque ou meditação, estabelecendo correspondências entre a corporeidade e o panteão para despertar forças sagradas latentes, como na identificação dos dedos com elementos cósmicos e divindades tutelares e na imposição de sílabas coloridas sobre as unhas em representação dos cinco Tathāgatas.

8. As mudrās relacionam-se à iconografia pela reprodução de gestos e posturas arquetípicos capazes de suscitar estados de consciência profundos, embora também possuam sentidos eróticos e, no Haṭhayoga, designem posições associadas à respiração e à concentração destinadas a imobilizar o sêmen, integrando sempre uma prática litúrgica em que imagens, gestos e sons atuam conjuntamente.