ELIADE, Mircea. Occultism, witchcraft and cultural fashions: essays in comparative religions. Chicago (Ill.) London: University of Chicago Press, 1976.
1. Na velhice, todo autor prolífico descobre que muitos de seus livros mais queridos permanecerão por escrever, e a renúncia melancólica a obras esboçadas ao longo de vinte e cinco anos é compensada pelo uso de suas notas em conferências e artigos ocasionais que, embora não resumam longos anos de pesquisa nem apresentem o tema de modo plenamente coerente, têm a vantagem de, destinados a públicos não especializados, ser acessíveis a qualquer leitor inteligente, vantagem a não desprezar apesar dos riscos da divulgação, pois a única ambição inocente do estudioso é ser lido fora de sua comunidade erudita, ambição que deve ser especialmente encorajada entre os estudantes de história das religiões.
2. Os textos reunidos, escolhidos entre dezenas de conferências e artigos dos últimos dez anos e ligados direta ou indiretamente a grandes obras projetadas, têm sobretudo caráter introdutório e visam recordar problemas antigos mas esquecidos ou reabrir controvérsias conhecidas a partir de perspectivas novas, tendo sido quase todos proferidos como conferências e mantido seu estilo oral, apenas acrescidos de notas e alguns parágrafos de ampliação.
3. O último ensaio, “Espírito, Luz e Semente”, destoa dos demais por ter sido escrito para uma revista erudita, com numerosos documentos de culturas pouco conhecidas e farta bibliografia, mas suas características externas não fazem dele um produto de pura erudição, pois a profusão de citações serve apenas para apresentar as inúmeras expressões de um teologúmeno arcaico e amplamente difundido, a equação entre o modo de ser divino e “espiritual” e a experiência da Luz Pura e entre a criatividade divina e uma iridescência seminal, tema fascinante e importante para o problema dos “universais” ou “invariantes” da experiência religiosa, já que a equação Espírito = Luz = criatividade divina, considerada junto com a morfologia das teofanias luminosas e das experiências de “luz interior”, permite identificar um universal não menos significativo que o mysterium tremendum.
4. A revisão e o aprimoramento estilístico dos textos devem-se a antigos alunos, Nancy Falk, Norman Girardot e Park McGinty, e ao assistente Bruce Lincoln, enquanto estas páginas, como toda a obra dos últimos vinte e cinco anos, não teriam sido escritas sem a presença inspiradora e o apoio ininterrupto da esposa, sobre o que, porém, convém silenciar, pois do que não se pode falar deve-se calar.