Do ponto de vista da história do espírito, há uma solução de continuidade entre a alquimia, que se propunha como ciência sacra, e a química, que se constituiu sobre a dessacralização da matéria, análoga à diferença qualitativa entre um drama ritual, que engajava a experiência religiosa e a salvação da comunidade, e o drama profano, que visa emoções estéticas e a perfeição formal.
As operações alquímicas não eram meramente simbólicas, mas materiais e laboratoriais, embora visassem um fim distinto da química: a transmutação da Matéria (Pedra Filosofal) e da vida humana (Elixir da Longa Vida), e não a análise da estrutura da matéria.
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O simbolismo dos processos alquímicos, como demonstrado por C. G. Jung, reatualiza-se no inconsciente moderno.
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A função soteriológica parece ser constitutiva da alquimia.
A originalidade da alquimia não deve ser medida por sua contribuição para o surgimento da química, pois da perspectiva alquímica a química representou uma decadência, a secularização de uma ciência sagrada; para compreender um fenômeno cultural estranho à ideologia moderna, é necessário descobrir seu “centro” e instalar-se nele para acessar seus valores.
Um complexo de inferioridade da cultura europeia leva à suspeita de obscurantismo quando se apresentam em termos honoráveis as culturas arcaicas, complexo este historicamente compreensível devido ao esforço sem precedentes do espírito científico nos últimos dois séculos e à fé no progresso como via de acesso à verdade e à dignidade humana.
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O triunfo da ciência gerou uma visão de superioridade cultural.
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Pesquisas orientalistas e etnológicas revelaram a validade de sistemas metafísicos, morais e econômicos de outras culturas.
A cultura europeia, tendo se comprometido heroicamente com a via científica e industrial, tornou-se ciumenta de seus valores e suspeita de qualquer validação de criações culturais exóticas, pois o reconhecimento da grandeza destas poderia gerar dúvidas sobre os sacrifícios exigidos pela via escolhida.
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A possibilidade de outras culturas não serem inferiores ameaça a justificativa dos esforços e sacrifícios da civilização ocidental.
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O complexo de inferioridade está sendo superado pelo curso da história.
É de se esperar que, assim como as civilizações extra-europeias passaram a ser estudadas em seu próprio campo de visão, certos momentos da história espiritual europeia mais próximos das culturas tradicionais, como a alquimia, deixem de ser julgados com os partis pris dos séculos XVIII e XIX.
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A alquimia é uma criação do espírito pré-científico.
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Apresentá-la como etapa rudimentar da química é um erro de perspectiva historiográfica.
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A valorização dos textos alquímicos deve considerar seu próprio universo teórico, e não a escala de valores da ciência experimental.