Nenhum manual, tratado ou dicionário especializado consegue evitar que o leitor perca o pé no oceano de erudição, ao atentar em “histórias” que no fundo nada têm a ver umas com as outras.
A distinção entre “mito” e “lenda heróica” já tem algo de significativo, embora nesta os deuses quase sempre intervenham com traços não desprezíveis.
Decidiu-se apartar os deuses para o lado do mítico e alguns personagens historicamente demonstráveis para o lado da lenda heróica.
Os traços do “conto popular” que emergem tanto no mito quanto na lenda heróica podem ser vistos como sobrevivências persistentes de situações originariamente míticas, cujo caráter mítico original se perdeu.
Uma cronologia científica baseada em maior ou menor antiguidade de documentos escritos é inválida para a Grécia, dada a lacunaridade da tradição literária — um mito testemunhado por escritores helenísticos ou romanos pode ser tão ou mais antigo do que outro que já se lê em Homero ou Hesíodo.
A cronologia verdadeira terá de assentar em critérios internos, entre os quais se releva o da gradativa “humanização” dos personagens no caráter e na ação.
Um mito autêntico situa-se na linha que vai das origens primeiras aos fins últimos, movendo-se entre teocosmogonias e escatologias, e os deuses no mito funcionam como nódulos de uma rede que aprisiona respostas e perguntas que o homem só viria a enunciar com o advento da filosofia.
Mitologema ou mitema é resposta a uma pergunta que jamais e por ninguém foi feita; filosofia é pergunta que nunca aceitou qualquer resposta como definitiva.
A filosofia surgiu como antagonista da mitologia, mas caminhou ao lado dela e de mãos dadas com o adversário sem o perceber.
O ponto de separação está determinado historicamente pelo momento em que a filosofia una se dispersou em disciplinas com objetos próprios — como a luz que atravessa um meio refrangente —, esquecendo a luz que está em todas as cores.
A crença de que a idade do mito ficou para trás e de que se vive hoje na idade de uma razão soberana é apenas o fato de que, a partir de determinada época, não se contam nem escrevem mais mitos — mas o mítico persiste tanto mais quanto menos se adverte sua existência.
O desenvolvimento tecnológico, dialeticamente ligado ao progresso da ciência, é uma explosão da verdade que não chegou a revelar-se inteiramente no mito de Prometeu: só agora o titã se tornou realmente “titânico”.
O novo fogo aceso na terra está para além do bem e do mal, aguardando a decisão do único ser que se arrogou o poder de decidir acerca de tudo — o Homem que se julga senhor absoluto do universo.
A substituição de Prometeu pelo próprio Homem não seria possível sem as linhas de força do mito judaico do Paraíso Perdido e do mito cristão do Regresso ao Paraíso.
No Gênesis, o homem incorre na suspeita de se querer igualar a Deus; os Evangelhos abriram o caminho à crença em um senhorio absoluto sobre toda a natureza.
Todas as culturas e épocas vivem a vida de um mito — que pode não assumir a forma concreta de um relato —, e um mito oculto é o que traça, sem que se saiba, as linhas percorridas pelo pensar e pelo agir.
O mito oculto pode ser o a priori de todo o apriorístico: não apenas das formas de apreensão do sensível e das categorias do inteligível, mas o que está antes e atrás de toda a dualidade sujeito-objeto.
O mítico desconhece o dualismo radical e os opostos inconciliáveis; reconhece-se sempre que as oposições apontam para a terra ignota onde tendem a coincidir numa unidade inimaginável, irrepresentável, impensável e indizível.
O mítico indica silenciosamente o silenciar-se de todos os choques da multiplicidade-parcialidade nessa Unidade-Totalidade que é o Real, o Absoluto ou o Ser.
Distinguem-se agora “mítico” e “mito”: os mitos viveram outrora e apenas uns poucos sobrevivem, sendo projetos da Realidade — configurações do acontecer que assumem uma forma com o lado de dentro no homem intramundano e o lado de fora no mundo extra-humano.
Por “mito” entende-se qualquer dos relatos sui generis que chegam por último da Grécia Antiga e da Idade Média, com correspondentes nas culturas “primitivas” sobreviventes — as formas concretas, literárias ou pré-literárias, do “mítico”.
Hoje nenhum digno representante da civilização conta ou escreve mitos ainda não escritos; mas o “mítico” não cessa de revelar-se nos poetas da palavra, das cores, dos volumes e dos sons, e sobretudo nas religiões.
Das religiões nascem os mitos tão naturalmente quanto as formas de vida orgânica surgiram da vida cósmica da natureza; o mais difícil é detectar o mítico num sistema filosófico, embora não haja sistema que não deva seu início e seu término a um impulso mítico originário.
Platão ainda contava mitos porque vivia numa época em que os poetas lhe davam exemplos cotidianos.
“Mítico” é derivado de “mito”, mas pretende-se atribuir-lhe uma universalidade que abranja tanto o mito relatado quanto aquele que tanto mais o é quanto menos se percebe sua existência e agência.
A definição platônica de mito pela natureza dos personagens — história dos deuses, semideuses, heróis e dos que habitam o Hades — é a que vem primeiro historicamente.
Todas as definições posteriores parecem tão abrangentes que o vago em que flutuam permite falar de um “mito de Getúlio Vargas”.
A definição proposta é pela presença, no teor do relato, de referências explícitas às origens primeiras e aos fins últimos: os fins podem aparentemente faltar, mas a presença expressa das origens é indispensável para reconhecer o mítico que está no mito e até no que por tal não se reconheça.