Todas as culturas e épocas vivem a vida de um mito — que pode não assumir a forma concreta de um relato —, e um mito oculto é o que traça, sem que se saiba, as linhas percorridas pelo pensar e pelo agir.
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O mito oculto pode ser o a priori de todo o apriorístico: não apenas das formas de apreensão do sensível e das categorias do inteligível, mas o que está antes e atrás de toda a dualidade sujeito-objeto.
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O mítico desconhece o dualismo radical e os opostos inconciliáveis; reconhece-se sempre que as oposições apontam para a terra ignota onde tendem a coincidir numa unidade inimaginável, irrepresentável, impensável e indizível.
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O mítico indica silenciosamente o silenciar-se de todos os choques da multiplicidade-parcialidade nessa Unidade-Totalidade que é o Real, o Absoluto ou o Ser.
Distinguem-se agora “mítico” e “mito”: os mitos viveram outrora e apenas uns poucos sobrevivem, sendo projetos da Realidade — configurações do acontecer que assumem uma forma com o lado de dentro no homem intramundano e o lado de fora no mundo extra-humano.
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Por “mito” entende-se qualquer dos relatos sui generis que chegam por último da Grécia Antiga e da Idade Média, com correspondentes nas culturas “primitivas” sobreviventes — as formas concretas, literárias ou pré-literárias, do “mítico”.
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Hoje nenhum digno representante da civilização conta ou escreve mitos ainda não escritos; mas o “mítico” não cessa de revelar-se nos poetas da palavra, das cores, dos volumes e dos sons, e sobretudo nas religiões.
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Das religiões nascem os mitos tão naturalmente quanto as formas de vida orgânica surgiram da vida cósmica da natureza; o mais difícil é detectar o mítico num sistema filosófico, embora não haja sistema que não deva seu início e seu término a um impulso mítico originário.
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Platão ainda contava mitos porque vivia numa época em que os poetas lhe davam exemplos cotidianos.
“Mítico” é derivado de “mito”, mas pretende-se atribuir-lhe uma universalidade que abranja tanto o mito relatado quanto aquele que tanto mais o é quanto menos se percebe sua existência e agência.
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A definição platônica de mito pela natureza dos personagens — história dos deuses, semideuses, heróis e dos que habitam o Hades — é a que vem primeiro historicamente.
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Todas as definições posteriores parecem tão abrangentes que o vago em que flutuam permite falar de um “mito de Getúlio Vargas”.
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A definição proposta é pela presença, no teor do relato, de referências explícitas às origens primeiras e aos fins últimos: os fins podem aparentemente faltar, mas a presença expressa das origens é indispensável para reconhecer o mítico que está no mito e até no que por tal não se reconheça.