O sacrifício dos plantadores primitivos — incluindo a caça de cabeças e o canibalismo — reverte num drama eminentemente religioso com a decorrência moral do próprio dever de matar, e o mito de Hainuwele fornece a razão seminal que acalma o repúdio justificado.
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A primordialidade de um assassínio cosmogônico, teocosmogônico ou teo-antropo-cosmogônico é o que o ritual não dispensa sem negar sua competência de renovação perene das origens.
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O pensamento mal oculto no mito — de que a morte precede a vida e só procria quem já matou — projeta-se na crença que dá lugar à meditação sobre o mistério da vida.
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Este sacrifício é o único que se apresenta com razoável necessidade de haver existido e, sob formas de atenuado realismo, de ainda subsistir.
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Por “formas atenuadas” entende-se a substituição da vítima por alguma de suas formas simbólicas — e simbólicas no sentido próprio da palavra, pois a vítima é a mesma divindade que, assassinada, se transmutou no mundo ou nas coisas mais valiosas que nele existem.
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No momento do sacrifício, os sacrificadores não são homens, mas deuses (demas), semelhantes ao que morre por suas mãos.
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A motivação do assassínio é atribuída à inveja — causa que, em níveis mais altos de religiosidade, como nos grandes escritores da Grécia clássica, é invertida: são os deuses que têm inveja dos homens, temendo a usurpação humana de suas prerrogativas.