Ao se pesquisar o sentido da querela que opõe os dois irmãos divinos, percebe-se que está em causa uma daquelas rivalidades iniciáticas tão frequentes entre grupos: são os iniciados de Apolo que se enfrentam com os iniciados de Hermes.
É certo que os primeiros (especialmente na Arcádia, onde se situam o roubo das vacas e a invenção da lira) eram invasores, enquanto os segundos tinham a seu favor a qualidade de autóctones.
O autor do hino complica as coisas ao fazer intervir adicionalmente a Beócia (é nessa região que se encontra o oráculo das Thrias, concedido por Apolo a seu irmão mais novo, e é em Onchestos que um ancião avista Hermès conduzindo as vacas).
O fundo da rivalidade é traduzido pelo texto homérico quando Hermes diz a Maia (sua mãe): “Não sofreremos ficar aqui, nós dois, sozinhos entre os Imortais, sem receber oferendas nem preces, como tu me recomendas. É melhor viver todo o tempo com os Imortais, rico, opulento, próspero, do que apodrecer em casa numa gruta obscura; quanto às honras, terei eu – e vou começar – os mesmos privilégios sagrados que Apolo.” (versos 167 e seguintes).
As iniciações tradicionais ligadas a Hermes eram menos brilhantes que as iniciações apolínias: comportavam menos sacrifícios e menos pompa, ignoravam provavelmente a manducação das carnes sacrificiais.
Isso explica que Hermes, assim que nasce, seja tomado por “uma vontade de carne” (Kreiôn eratizôn: verso 164); no entanto, depois de imolar duas das vacas, “não pôde se resolver, em seu coração generoso, a fazê-las passar por sua garganta sagrada”.
Percebe-se aí que os bovídeos eram sacrificados, e sua pele era utilizada para sacralizar o homem, antes que se consumisse comunitariamente sua carne.
O Hermes do hino se insurge contra a simplicidade neolítica dos ritos de que é patrono e pede a paridade com a liturgia dos recém-chegados, sem perceber que isso será, no final das contas, uma decadência para ele.
O acordo que acaba por se estabelecer entre os dois iniciadores significa, incontestavelmente, que uma espécie de osmose se instituiu entre os dois grupos religiosos.
Não se podem considerar as indicações de detalhe fornecidas pelo texto sobre esse assunto como possuindo valor histórico: são acréscimos de aedo, e não verdadeiros elementos míticos.
Não se pode admitir como seguro que as cerimônias iniciáticas presididas pela entidade Apolo (hipóstase da Ilha Santa) tenham tomado emprestado às iniciações arcádias de Hermes a lira de sete cordas descrita no hino: a tradição antiga atribuía a descoberta desse instrumento a Terpandro (meados do século VII a.C.); anteriormente, as liras tinham apenas três ou quatro cordas.
Inversamente, não se pode crer que os iniciados da Arcádia tivessem ignorado o uso religioso da varinha e do chicote antes da chegada de Apolo, ou que as faculdades de vidência lhes fossem desconhecidas antes das iniciações apolínias.
O profetismo, mostrado muitas vezes, era inerente desde o início às disciplinas iniciáticas antigas, que tinham por objetivo subtrair o pensamento humano ao domínio do tempo tanto quanto à tirania do espaço.
Apolo, após constatar que o jovem Hermes era fértil em “malabarismos” e “truques” (chegando a se transformar em bruma para passar pelo buraco das fechaduras), “amarrou-lhe os braços com laços sólidos – ramos de agnocasto: estes, sob seus pés, enraizaram-se imediatamente na terra, no mesmo lugar, enlaçando-se uns nos outros, e ganharam facilmente, segundo o desígnio do subtil Hermes, todas as vacas agrestes; Apolo considerava o prodígio com espanto” (versos 410-414).
Esse prodígio (o bastão cortado que reverdece ou refloresce) tem análogos em todos os países e está em toda parte relacionado com a posse do mana transcendente (princípio e substrato das forças físicas de fertilidade), atestando a impregnação de um ser ou objeto pela energia sobrenatural e constituindo uma das provas da iniciação.
Ele se ligava aos ritos anuais que comportavam a substituição de uma árvore sagrada por uma árvore nova – idêntica à anterior por conter a mesma substância divina, sendo a mesma árvore que continuava, assim como a fênix ou as aves sacrossantas do mesmo gênero eram um único e mesmo pássaro renascendo periodicamente na celebração dos ritos.
Os ramos sagrados provenientes de Hermes envolvem subitamente todas as vacas, sinalizando a identidade de essência entre elas e o deus – a total comunhão entre os iniciados. Para todos, esse reverdecimento atestava o renascimento no seio da vida imortal.
O rito do acorcentamento (aqui colocado de forma arbitrária em conexão com o reverdecimento) foi um dos grandes usos iniciáticos da antiguidade arcaica, intervindo primeiramente nas provas a que os neófitos deviam se submeter.
O iniciador a transformações (frequente na civilização urano-posidônia ou civilização da Ilha Santa) revestia, aos olhos do neófito (graças a processos hipnóticos), aparências múltiplas que assustavam ou desorientavam.
O neófito devia ser capaz de contra-atacar o iniciador por meio de prestígios similares, ou conseguir imobilizá-lo e amarrá-lo – administrando assim a prova de sua própria potência mental e qualificando-se como iniciado.
Os mais conhecidos iniciadores gregos a transformações são Nereu e Proteu; no matriarcado, Tétis teve renome igual ao deles. Em Roma, Fauno (acorrentado pelo rei iniciado Numa) foi uma alta personalidade da mesma ordem. Entre os escandinavos, Fenris (o grande Homem-Lobo, acorrentado pelos deuses Ases) foi um iniciador de mesma envergadura.
Mais tarde, quando os ritos iniciativos caíram em desuso, continuou-se a acorrentar pedras, árvores, estátuas etc. nos quais se integrava o mana dos antigos iniciadores a transformações (considerados ontologicamente idênticos a eles). Em Roma, a estátua de Saturno (grande mestre dos ritos iniciáticos) foi por muito tempo acorrentada.
Compreende-se então o sentido profundo do acorrentamento de Hermes por Apolo: não há aí nenhuma fantasia, mas a afirmação, por uma nova via, da qualidade de iniciador e iniciado inerente aos seres que se tornam pedras sacrossantas.
Está-se em presença de um documento histórico e sociológico cujo alcance o autor do hino provavelmente já não suspeitava, mas que o método comparativo permite recolocar em seu devido lugar.
O parentesco de Hermes com os iniciadores marinhos a transformações fornece a chave para explicar por que a Mãe neolítica Maia, ao ser rebaixada ao posto de “ninfa”, foi assimilada a uma das Plêiades e tida como filha de Atlas.
O motivo é que se exerceu pouco a pouco na Grécia pré-helênica a influência das práticas iniciáticas difundidas pela Ilha Santa – influência propagada por mar antes de seguir (por volta da metade da idade do bronze) a via continental chamada “rota do âmbar”.
Os arcádios só foram cortados do mar na idade do ferro (pelos dórios); em épocas anteriores não eram, portanto, a povolação exclusivamente continental que seriam na idade clássica.
Um velho nome helênico do mar (destacado como designação divina pela Teogonia de Hesíodo) é Ponto, que se aproxima (segundo Meillet) do vocábulo latino pons e do sânscrito panthab (caminho). O mar era o caminho por excelência, que conduzia a Ponto – o venerável “ancestral” da civilização marítima, situado a oeste ou noroeste (direções confundidas pelos geógrafos antigos).
A constelação das Plêiades (as filhas de Pleione, verbo pleiô = navego), que aparecia no céu na primavera (por volta de maio), sinalizava a retomada das comunicações com o ocidente; foi portanto posta em relação ontológica com a Terra primordial e com as montanhas sagradas a ela ligadas, montanhas cuja energia transcendente frequentemente se hipostasiava em Atlas.
As Virgens Hespérides (“filhas” de Atlas e dispensadoras das maçãs de ouro) eram também, sem dúvida, iniciadoras a transformações.
Compreende-se assim que Maia (que provavelmente adquirira pouco a pouco esse último caráter, e dele fizera beneficiar seu “filho” Hermes) tenha tido lugar naturalmente entre as Plêiades e sido incluída na progênie de Atlas.
Por aí se atesta, ademais, que se está bastante distante do neolítico, onde quase sempre (explicou-se o porquê) a posição central no seio do sagrado era ocupada por uma personalidade feminina.