GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.
Hermes, inventor do fogo sagrado
A produção, pelos novos iniciados, do fogo sagrado é descrita assim: “Ele (Hermes) tomou um belo ramo de loureiro e, mantendo-o bem na mão, fê-lo girar sobre madeira de romãs selvagens; disso exalou-se um sopro quente.” — Foi mostrado em outro lugar o vínculo estreito dos ritos iniciáticos com o fogo, e assinalado o modo transcendente pelo qual este era primitivamente obtido. O procedimento descrito pelo hino é relativamente tardio; não conduz ao fogo surnatural, mas simplesmente a um fogo sagrado, obtido a partir de dois vegetais divinos, um dos quais era considerado “macho” ou “ativo” (no caso: o loureiro), e o segundo, menos duro, como “fêmea” ou “passivo”. Em muitas regiões, o movimento giratório da madeira macho na madeira fêmea é identificado à união sexual divinizante. Se ainda aqui recai-se na concepção neolítica fundamental: essa hierogamia do homem e da mulher, que restaura o estado edênico, que restabelece a indivisão e a unidade próprias do universo dinâmico, que reintegra o ser humano no reino de Deus, produz igualmente o fogo-luz, a matéria radiante, da qual o fogo sagrado é a manifestação visível. Esse conjunto de perspectivas certamente não carece de grandeza.
O hino proclama, por outro lado, da seguinte maneira, que o fogo sagrado emergiu dos ritos iniciáticos. “Hermes, o primeiro, fez jorrar o fogo, e revelou os meios de fazê-lo.” Nada é mais exato. A primeira centelha e a primeira chama sacrificiais, que transferiam dos objetos físicos para os cosmos de radiância, foram devidas a seres humanos iniciados, cujo pensamento se submetia à sobre-natureza e dela detinha toda a potência. Posteriormente, foi necessário recorrer a métodos menos transcendentes. Mas, durante milênios, as cerimônias iniciáticas comportaram periodicamente a produção do fogo novo, do fogo puro, pelos homens recentemente iniciados, e o transporte de sua benfazeja claridade sobre o território do grupo social, rumo às quatro regiões do espaço. Esse papel de Hermes, que quase sempre escapou até aqui, parece capital.