LOGOS

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.

Hermes Lógio. — Hermes Logos

Na época helenística e na época alexandrina, Hermes, benfeitor da humanidade, atingiu o máximo de seu renome. Esse título não constituía, convém observá-lo bem, uma novidade: desde o início, o deus dos iniciados possuíra essencialmente esse caráter. Não se deve esquecer, por exemplo, que Aristófanes o nomeia deus muito sábio, amigo dos homens, e que, na Odisseia, ele é o deus de olhar justo, protetor dos homens sábios. — Contudo, o fim do paganismo pôs ainda mais em relevo esse traço de sua personalidade, destacando-o de diversos elementos que haviam deslizado, ao longo dos séculos, para o estágio folclórico e que, já não sendo compreendidos, sobrecarregavam as tradições míticas. O Hermes libertador, o Hermes celeste, o Hermes pai de Urânia, o Hermes corego das Cárites, das Musas e das Ninfas, o Hermes mediador, o Hermes possuidor dos segredos relativos à imortalidade radiante, receberam então todo o seu desenvolvimento. Foi negligenciado o antigo aspecto sexual, cuja grandeza já não era entendida. As Ninfas, as Musas e as Cárites deixaram de ser personalidades de carne e de sangue. Falava-se menos, igualmente, do mundo subterrâneo, cujo sentido elevado já não se apreendia. Permaneceu-se no império das ideias. Hermes tornou-se aquele que sabia traduzir em palavras os conceitos divinos; depois, por deslizamento para o profano, o orador, o magnífico falador, conhecedor das frases e dos gestos eficazes. O termo hermeneuein, exprimir seu pensamento pela palavra, expor, interpretar, traduzir, foi tido por aparentado ao nome do deus.

Finalmente, Hermes confundiu-se com o Logos: foi o Verbo que revela o universo eterno, a Razão da qual, entre todos os seres da terra, o homem se beneficia. Ao termo da evolução, reencontrava-se assim, sem o saber, a alta concepção neolítica que fazia da pedra sagrada, do herma iniciático, a manifestação do mundo divino, o reservatório da energia sobrenatural, o equivalente adequado do ser humano reconduzido a seu primitivo estado de super-homem. A voz que se fazia ouvir, milênios mais tarde, no coração dos reclusos, na obscuridade das grutas, era exatamente a de Hermes Logos. Como observaram os primeiros pensadores do cristianismo, era aquela, em grau supremo, do Verbo eterno.