GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.
Hermes deus do mercado, dos mercadores e dos negócios; o problema do Mercúrio latino
O deus dos iniciados tornou-se, por deslizamento do sagrado para o profano, o deus da ágora (Agoraios), aquele que compra e vende (Empolaios), o deus astuto e artificioso (Dolios), o que procura o ganho e a fortuna (Kerdôos, Tychôn), tendo como atributo uma bolsa. Esse aspecto prevaleceu no equivalente latino de Hermes, Mercúrio.
Ovídio (Fastos V 90) considera justamente o culto de Mercúrio tão antigo quanto o de Fauno, e o nome etrusco (Mirqurios) aparentava-se a merces (mercadorias). Apesar desse parentesco, concluir que “Mercúrio deve sua função a um trocadilho” é uma visão superficial – encontrada com espanto em obras sérias.
As Mercuriais romanas e o pômério
A confraria religiosa dos Mercuriais (adoradores de Mercúrio) era uma das mais antigas de Roma e se reunia nos arredores do pômério (a porção do território urbano perto do muro sagrado – post murum), sobrevivência do espaço reservado que circundava os recintos divinos do neolítico.
A existência do pômério (sobretudo em sua modalidade etrusca) prova que os ritos de fundação das cidades copiaram, na idade dos metais, a liturgia relativa à constituição das montanhas iniciáticas (o mundus era um mundo subterrâneo em redução).
Os Mercuriais de Roma estavam instalados perto da Porta Capena, onde possuíam uma fonte cuja água sacrossanta servia para aspergir as mercadorias que punham à venda (A. Legrand, in Daremberg e Saglio, Dict. des Ant. Gr. et Rom. s. v. Mercurius).
Esses adoradores de Mercúrio (cujo colégio foi escolhido como modelo por todos os Mercuriais posteriores do império romano) consideravam sua atividade como participante do domínio litúrgico – não é de um vulgar trocadilho, mas do sagrado incorporado nas merces, que procede o Mercúrio latino.
Locais sagrados como primeiros centros de negócios
A vizinhança da Porta Capena e do pômério lembra que, em todos os países, os locais santos (ou, mais precisamente, os santuários de iniciação) tornaram-se pouco a pouco os primeiros centros de negócios.
Nas grandes solenidades iniciáticas, todos os membros da tribo (e muitas vezes os das tribos vizinhas) se reuniam; negociações se iniciavam e trocas se efetuavam à margem das cerimônias rituais.
Mais tarde, as peregrinações, feiras, perdões, ducasses etc. (que prolongaram sob forma nova e muito degradada as iniciações antigas) conservaram caráter idêntico e foram acompanhadas de mercados ou feiras.
O próprio fórum romano, antes de ser o foco político, judiciário e econômico da Urbs, constituiu primeiro (em torno do Capitólio) a cidade santa de Saturnia – o local onde os neófitos morriam para renascer. Foi esse papel religioso das idades recuadas (bem anterior à fundação da Roma palatina) que transformou progressivamente baixios pantanosos num incomparável foco social.
Origens sacrais das trocas comerciais e o valor iniciático da riqueza
As trocas comerciais não tiveram originalmente a fisionomia atual: começaram como trocas de dons e, frequentemente, acompanhavam-se de uma destruição ostensória de seres ou objetos, destruição que operava uma incorporação do sagrado (evolução do potlatch).
A posse da riqueza foi, quase em toda parte (em época mais ou menos longínqua segundo os povos), uma prova de qualificação iniciática. Somente poderosos iniciados podiam ser ricos e unir-se ao mana transcendente por gloriosos sacrifícios, numa época em que o trabalho dos metais pertencia ao domínio das iniciações e todos os seres ou objetos tidos como constitutivos da fortuna estavam incluídos nos ritos iniciáticos.
Os julgamentos econômicos de valor foram primeiro, não se pode duvidar, julgamentos de valor iniciático.
O próprio ouro tornou-se o metal precioso por excelência (símbolo da riqueza) unicamente porque fora, durante milênios (graças à teocracia pré-histórica), o metal-luz, o metal-sol – condensação visível da radiância eterna, metal sacrossanto cuja descoberta e extração constituíam por si mesmas uma obra iniciática.
A tradição da alquimia (cuja grandeza é desconhecida) está inteiramente voltada ao ritual primordial de morte e ressurreição. O ouro puro nunca deixou de ser, para os alquimistas dignos desse nome, a energia dinâmica (substância das coisas fenomenais) que o pensamento alcança graças às disciplinas do mundo subterrâneo.
Hermes do mercado como degradação do Hermes iniciático
Esse breve resumo permite compreender como Hermes da praça pública e Hermes mercador procedem do Hermes protótipo – o Hermes iniciático, o Hermes-pedra.
Durante milênios, as negociações comerciais integraram-se nas cerimônias da iniciação; mesmo quando se desligaram delas, permaneceram por muito tempo associadas e guardaram um caráter religioso.
Não se compreende o Mercúrio-merces (assim como o Mercúrio-ladrão) se o isolarmos de seu ponto de partida para considerar apenas seu ponto de chegada – aqui jogou plenamente a lei da degradação do sagrado em profano, uma das regras essenciais da sociologia religiosa.
No hino homérico, Apolo declara a seu jovem irmão: “Tens de Zeus o privilégio de ser para os homens, sobre a terra nutridora, o fundador da troca (epamoibima erga thêsein).” Hermes não teria esse privilégio se não tivesse antes encarnado, por longa série de séculos, a energia transcendente comunicada aos homens pela grande liturgia tradicional.