O autor do hino demonstrou um sentimento muito vivo da realidade ao julgar necessário mencionar os oráculos entre as atribuições de Hermes, ou seja, entre os privilégios dos iniciados.
Ele se conforma à história ao indicar que o oráculo das Thrias, embora localizado “ao pé das gargantas do Parnaso”, não dependia de Apolo, mas estava nas mãos de três mulheres sagradas, chamadas Moirai (as Destinadas) ou as Veneráveis – reencontrando-se assim a tríade feminina neolítica, encarnação da tríade lunar.
Apolo não hesita em declarar que essas “três virgens orgulhosas” lhe ensinaram a própria arte divinatória, o que destaca a primazia local da vidência matriarcal.
Essas três irmãs têm “asas rápidas” e a cabeça “salpicada de um pó brilhante” – trata-se, portanto, de mulheres-abelhas, semelhantes à mulher alada (com abdômen de inseto) representada numa placa de ouro descoberta em Camiros (Jean Humbert: Homère, Hymnes 1936, p. 138, n° 1).
As mulheres-abelhas foram, junto com as mulheres-pombas, as sacerdotisas por excelência da antiguidade.
Um detalhe bastaria para provar que Hermes não tinha nenhuma necessidade de Apolo para ser perito na arte divinatória: na Acaia, em Faras, onde seu culto era tão arcaico e vigoroso, Hermes possuía um oráculo muito antigo.
O funcionamento desse oráculo era o seguinte: o consulente fazia sua pergunta diretamente à pedra em que o deus se encarnava, depois tapava os ouvidos e se afastava.
Chegando a alguma distância, o consulente abaixava as mãos, e as primeiras palavras que ouvia continham a resposta desejada – bastava interpretá-las.
Os gregos chamavam isso de clédon (palavra) e os latinos de omen: uma exclamação ou frase era desviada de seu sentido e inserida, pelo ouvinte, num complexo mental totalmente ignorado por quem a pronunciava.
Por um reverso dinâmico insuspeitado, a palavra se integrava no sagrado; esse gênero de adivinhação, de extrema sutileza, pertencia principalmente a Hermes (Hermes Cledônio).
É Hermes (isto é, o mundo transcendente – suporte, essência e síntese unificadora dos seres físicos, o mundo a que a iniciação dava acesso) que provocava a emissão da palavra cledonística e infundia sua significação profunda no espírito do ouvinte.