Tipo do iniciado-iniciador, Hermes exerce ao mesmo tempo o papel de Caçador e de Libertador, sendo-lhe por isso afetadas às vezes duas cores: uma sombria (cor da morte fenomênica) e outra clara (signo da ressurreição no seio da vida sem fim e da radiância). Seu manto e as pequenas asas apresentam frequentemente essa dualidade de matizes.
É ele que conduz ao batida para o mundo subterrâneo – o que explica que seja por vezes acompanhado de um cão (Hertz, Catal. of antiquities, n° 453) e que tenha sido provavelmente um homem-cão; aproxima-se assim de Anúbis (grande deus egípcio com cabeça de canídeo), com quem será frequentemente identificado (não sem razão) na época greco-romana.
Guia os homens na “descida aos infernos”, acompanha-os, ajuda-os, mostra-lhes o caminho a seguir para atingir a caverna das iniciações – daí suas epítetos notórios de Erionés ou Eriounios (bemfeitor), Hégemonios (guia), Diaktoros (o deus agindo).
Daí também sua fama como deus do sono, pois a morte iniciática é um sono dos sentidos que preludia ao despertar glorioso do pensamento puro. Hermes é aquele que reconcilia com a morte e a torna atraente. É a divindade Pompos (aquela que conduz os futuros recém-nascidos iniciáticos para os divinos nutridores encarregados de criá-los).
Os ancestrais dos arcádios (os primeiros beneficiários dos ritos) estão em relação com ele. Aipythos (filho de Elatos, rei de Phoesana) tinha seu túmulo – ou pretenso túmulo, pois se tratava provavelmente, segundo o uso antigo, de um túmulo iniciático onde os vivos “morriam” para ressuscitar – na encosta do monte Cilene; em Tégea, ele era confundido (com justiça) com Hermes.
Esse Aipythos resistiu, segundo a tradição, à invasão de Poseidon: prova de uma influência distante exercida sobre a Arcádia pela civilização marítima da Ilha Santa (no fim do neolítico, Poseidon havia substituído Urano à frente dessa civilização), confirmando o que se disse sobre Maia.
Outro ancestral notório dos arcádios, o ancestral epônimo Arcas, é representado (numa moeda de Feneia) nos braços de Hermes – eis o sentido profundo do Hermes crióforo.
Arcas era filho de uma mulher-ursa (Calisto) e neto de um homem-lobo (o famoso lobisomem Licaão); foi comido (sob a forma de uma vítima animal ritual e ontologicamente identificada com ele) pelo representante de Zeus durante um festim sagrado, e ressuscitou depois como homem-urso.
Todos esses detalhes definem o ambiente ritual da Arcádia longínqua, presidido por Hermes. Um herói arcádio, Mírtilo (cocheiro de Pélops), tinha seu “túmulo” em Feneia, atrás do templo de Hermes.
Em seu papel específico de Libertador, Hermes reclama Perséfone a Hades e conduz o carro que a traz de volta. Desce com Orfeu buscar Eurídice “nos infernos”. Assist à subida da nova iniciada para fora do mundo subterrâneo e lhe estende as mãos para ajudá-la.
Recebe o jovem Erictônio (filho da Terra e de Hefesto) quando é trazido das regiões inferiores. Conduz a teoria das Mênades, das Horas e das Musas; guia as Cárites para Apolo ou as três deusas para Páris.
As cenas desse gênero (decantadas ao longo dos séculos na medida em que o sacramento da sexualidade perdeu sua grandeza) terminavam, em época recuada, em hierogamias – os ritos que coroavam a iniciação nas comunidades de procedência matriarcal.
Os folguedos de Hermes com as Ninfas e o costume de invocar o deus nos casamentos (para que torne felizes os esposos) lembram de perto esse emprego sexual ligado ao Hermes fálico.
O “rapto das vacas” nada mais foi, em sua realidade primeira e vivida, que uma “libertação das vacas”, assim como a vitória sobre Argus foi simplesmente a libertação da mulher-vaca.
Depois de ter servido de guia, por longos séculos, aos meninos e meninas de osso e carne, Hermes tornou-se (em virtude de uma lei evolutiva que se descobre em todos os países) o deus dos mortos.
Quando os ritos neolíticos desapareceram, as mortes iniciáticas das idades antigas confundiram-se com as mortes autênticas ou orgânicas (e houve a confusão correlativa entre recém-nascidos iniciáticos e lactentes). Hermes passou assim a pesar as almas (Psicostasia).
Na Odisseia (XXIV, 1-14), é ele quem leva ao Hades as vítimas de Ulisses; os termos empregados provam que o mundo dos mortos não é outro, nesse caso, senão a Ilha Santa – a residência dos grandes iniciados vivos.
Vê-se “o deus bemfeitor arrastar os mortos através dos caminhos sombrios. Eles transpõem o curso do Oceano, ultrapassam a rocha Leucádia, as portas do Sol, o povo dos Sonhos, e logo chegam à pradaria de asfódelos, onde habitam os fantasmas daqueles que já não são” – transição do mundo subterrâneo iniciático (mundo da reclusão sagrada) para o mundo subterrâneo clássico (mundo dos manes).
Em certos vasos, Hermes assiste à deposição no túmulo (descida dos iniciados no mundo subterrâneo). Em léquitos atenienses, ele está perto do Estige (entrada do mundo subterrâneo), mostrando ao defunto (que segura pela mão) o barco e o barqueiro dos Infernos. Em outros lugares, tranquiliza com um sinal a alma medrosa e a convida a aproximar-se sem pavor.
Aparece então, segundo a expressão do grande iniciado Ésquilo (Coéforas 620), como o rei dos mortos – o deus Soter (Salvador). O universo da radiância lhe é familiar, é seu domínio; dele detém a chave – por isso é representado às vezes como Kleidophore ou Kleidouchos.
Tendo conduzido a ele durante tanto tempo os vivos para torná-los imortais, pode agora para lá introduzir os mortos. Sabe que a morte orgânica é um simples sono do mundo dos sentidos, e que se reencontra, após o trépas físico, a mesma realidade transcendente, a mesma energia dinâmica, o mesmo pensamento radioso, para o qual o ritual de morte e ressurreição guiou os iniciados desde o início dos tempos humanos.
Não há duas mortes, há apenas uma. Bem-aventurados os iniciados (a língua grega confunde iniciação e morte: teleté, teleuté), bem-aventurados aqueles que sabem morrer antes de serem atingidos pela morte fisiológica (própria ao cosmos da maya).
O Hermes vestido de claridade que eles alcançaram já aqui embaixo os recebe contra seu coração e os aperta eternamente em seus braços, quando eles estão libertos para sempre do tempo e do espaço.