Encarando as coisas apenas de fora, não se pode atingir os sentimentos íntimos das hiérodulas — ou ao menos das mais piedosas entre elas — nessas épocas distantes, sendo muito possível que seu estado se tenha acompanhado de emoções profundamente religiosas.
Entre numerosos místicos autênticos, como observa Fr. Heiler, todo o vocabulário é erótico — olhares de amor e palavras de amor, quarto de amor e leito de amor, prazeres de amor e dores de amor, jogos e brincadeiras, abraços, carícias e beijos; dar-se, despir-se e casar-se — e todas as imagens concretas de uma poesia amorosa individual reaparecem nas confissões e nos cânticos espirituais desses místicos
Referência: Frédéric Heiler, A Prece, trad. francesa, 1931, pp. 363-364
Como nos ritos sexuais primitivos, a alma é considerada, na mística amorosa sublime, como o elemento feminino, e Deus como o elemento masculino nas relações amorosas; esse dom apaixonado de si mesmo ao noivo celeste é frequentemente associado a um amor maternal muito terno pelo filho divino
Freiras apaixonadas falam de concepção e nascimento, de carícias e de nutrir o Menino Jesus, crendo desempenhar o papel da Mãe de Deus — tais imagens se encontram mesmo em Angelus Silesius, que habitualmente não abusa das exagerações afetivas
A mística hinduísta de Krishna e a mística dos sufis persas conhecem também essas carícias maternas dadas a um filho divino
Segundo o sábio professor de Marburgo citado por Heiler, a mística das esponsalidades dataria, no Ocidente, de São Bernardo — o primeiro a considerar a poesia inflamada do Cântico dos Cânticos como símbolo das experiências de um misticismo afetivo; o que permaneceu ainda exegese e teoria teológica em Bernardo de Claraval tornou-se, na alma de certas freiras solitárias, uma experiência ardente e uma paixão inflamada
Os acordes mais íntimos e mais ternos dessa mística feminina se encontram no pequeno livro de Mechthilde de Magdeburgo — Vom fliessenden Licht der Gottheit — onde tudo é amor, paixão e poesia, sem nenhuma sombra de intelectualidade, expresso não na língua teológica e eclesiástica, mas na língua materna, manejada com incomparável força poética
Não foram apenas freiras e mulheres, mas também monges que, a partir da explicação do Cântico dos Cânticos dada por Bernardo, consideraram o Senhor divino e o Salvador como um amante e o noivo de sua alma
Somente as personalidades cuja piedade é influenciada antes de tudo pela mística divina clássica de Agostinho — como Tomás de Aquino e Boaventura — ou pela mística do infinito do Areopagita — como Eckhardt e Tauler — se mantêm à margem desse misticismo erótico, cujos dois representantes principais são Suso e Jacopone da Todi
O misticismo da época que se seguiu à Reforma é igualmente influenciado por esse mesmo motivo — João da Cruz e Teresa cultivam o misticismo erótico; Angelus Silesius, o frio místico do infinito, apresenta ele mesmo alguns traços desse gênero; o pietismo dos Países Baixos e da Alemanha mostra frequentemente um erotismo vivo, sendo Zinzendorf o melhor exemplo
Plotino diz a propósito da união extática — não há mais intervalo entre o homem e o bem soberano; eles não são mais dois, mas os dois se tornam um; não se pode mais distingui-los enquanto o último está presente; os amantes e os amados imitam nesse mundo essa união quando querem se unir num único ser — Heiler, p. 365
Os
Upanishads comparam a experiência do êxtase ao amor sexual — tudo como aquele que é abraçado por uma mulher amada não tem consciência do que é interior e do que é exterior, da mesma forma o espírito abraçado pelo ser infinito não tem consciência do que é interior e do que é exterior