Nos casos citados, o vínculo entre a defloração ritual operada no recinto sagrado e o casamento ainda aparece, embora se afrouxe progressivamente, até que em outros casos se perde totalmente de vista, restando apenas o ato de se prostituir no santuário.
O rito podia se cumprir após o casamento — como em certas prostituições sírias — sem tratar-se mais de defloração ritual, pois se havia passado por uma transição insensível a um uso que não retinha mais nada do desígnio inicial
O que importava no Oriente era que o rito se cumprisse no templo ou no recinto sagrado, sob a égide da deusa que antigamente presidia às iniciações — essa santificação pelo lugar substituía aquela que, em outros contextos, se efetuava pela intervenção de um personagem tido por sagrado
A obrigação de se dar apenas a um estrangeiro — como em Babilônia e em Biblos — recordava ainda a necessidade de recorrer a uma personalidade dotada de caráter especial, pois não é raro na etnografia que os estrangeiros sejam considerados seres à parte, em posse de um mana próprio
Na epopeia caldeia de Gilgamesh, a curiosa figura de Enkidu — ou Eabani — é a de um desses homens sagrados que vivem com os animais fora da aldeia agrícola; a mulher com quem o texto atual o coloca em relação é apresentada como uma cortesã que o inicia a uma nova civilização, fazendo-o perder os poderes que possuía em sua situação anterior — anteriormente era sem dúvida o iniciador e deflorador, e quando esse papel cessou de ser compreendido, a prostituição se desenvolveu, mas ele foi mantido em relação com uma mulher à qual se unia, ponto essencial na tradição antiga de ordem iniciática, embora essa mulher tivesse se tornado uma cortesã e ele não tivesse mais a quem deflorar
As tabuletas sumérias que contêm o relato datam do fim do terceiro milênio antes da era cristã, mas o texto remonta certamente a vários séculos além disso — para a tradição primeira, anterior às deformações, é necessário atingir o quarto milênio