Pierre Gordon. La nuit des noces. Vieilles coutumes nuptiales. Leur signification — Leur origine. Paris: Dervy, 1950
SENTIDO PROFUNDO DA LITURGIA DA SEXUALIDADE E DAS CONCEPÇÕES FÁLICAS
A NOITE DE NÚPCIAS: O SACRAMENTO DA SEXUALIDADE SEGUNDO AS VISÕES ANTIGAS
A compreensão da evolução histórica exige um esforço intelectual para restaurar a mentalidade ontológica das gerações antigas, sendo as narrativas da Índia as que melhor permitem discernir tal atitude espiritual.
Relato sobre Civa e Umâ, no qual a divindade permaneceu insensível até que ela praticasse o ascetismo e as mais duras mortificações.
Realização da união sacro-santa na montanha apenas após Umâ provar seu desprendimento da maya e acesso à energia imortal.
O acoplamento da carne era visto como o simples reflexo da união eterna.
O phallos e o kteis eram considerados instrumentos divinos de um grande sacramento neolítico que representava a unidade dinâmica do universo transcendente.
A penetração do linga no yoni ou do mani no padma constituía a mais alta expressão terrestre da unidade dinâmica.
Metamorfose do ato animal em ato sobrenatural, tornando-se dispensador da Graça divina sob condições rituais.
Reintegração do ser humano ao seio do Um, remediando a dispersão causada pela maya.
A proto-liturgia incorporava a tradição de que o ser humano original não habitava um mundo espaço-temporal, mas apreendia o universo em sua essência energética e substancial.
Conhecimento direto da substância dos seres em uma esfera superior onde os dados sensoriais eram sintetizados e absorvidos.
Percepção do universo como um substrato extraespacial de energia radiante em vez de um cosmos físico de fenômenos mecânicos.
Identificação do pensamento com o ser das coisas sob o clima da unidade.
A lei universal do ser fundamentava-se no dom total e no comunismo integral, onde as individualidades não se cindiam em seres separados, mas constituíam uma única realidade.
Impossibilidade de possuir o próprio ser sem entregá-lo irrestritamente através do amor.
Definição do comunismo integral como a própria essência de Deus.
Advertência de que a apropriação pessoal gera personalidades teratológicas e monstros cósmicos com apenas aparência de ser.
O HERMAFRODITISMO INICIAL
A concepção de um ser humano inicial hermafrodita em diversos povos antigos resultou de uma interpretação das liturgias que representavam a criação de um segundo ser pela comunicação de substância.
Referência ao ritual do capítulo II da Gênese sobre a criação de Eva a partir da substância de Adam.
Utilização de uma partícula de energia radiante para a criação de um novo centro de consciência.
Manutenção da noção de que o homem e a mulher formavam um só ser em vários centros de consciência no habitat original da matéria radiante.
O sacramento da sexualidade buscava restaurar o estado edênico e a unidade transcendente inicial, exigindo que os participantes estivessem em estado de graça e desprendidos da maya.
Necessidade de uma longa preparação iniciática e provas duras para transitar do profano ao sagrado.
Realização da hierogamia após grandes retiros no mundo subterrâneo, conforme atestam tradições civaístas.
Preservação da grandeza do sacramento sexual neolítico no sacramento cristão do matrimônio, que faz do homem e da mulher um só ser, embora sem o ato carnal público.
A recusa em considerar o esplendor religioso do passado impede a compreensão da superioridade dos cultos fálicos neolíticos em relação ao paganismo antropomórfico clássico.
Manifestação da essência eterna do universo através do linga ou de pedras e conchas em forma de vulva que representavam a Mãe Divina nas sociedades matriarcais.
Adoração dos órgãos genitais e de sua união como forma de absorção na unidade soberana de Deus.
A LITURGIA DA SEXUALIDADE E A NOÇÃO DO DOMÍNIO RITUAL
Narrativas indianas que descrevem Civa em atos carnais prolongados sob a observação de outros deuses representam conjunturas profundamente religiosas e não exibicionismo.
Interrupção do acoplamento de cem anos pelos deuses por temor de que a Terra não suportasse o filho nascido de tal união.
Paralelo com a hierogamia pública praticada por um santo homem de Tétouan em plena rua para a edificação da multidão.
Característica da liturgia hierogâmica consistente no cumprimento do ato sexual em santuários ou locais públicos.
O domínio ritual permite entender que a essência dos seres para os antigos não residia nos fenômenos sensíveis, mas no mana ou energia ultrafísica que os dirige.
Contraste com a ciência contemporânea, que trata a energia radiante apenas como uma hipótese explicativa e não como realidade absoluta.
Busca de contato com essa força transcendente através de disciplinas ascéticas e místicas da iniciação herdadas do primeiro ancestral.
Os atos e objetos que compunham o domínio ritual permitiam ao pensamento comandar as essências e a matéria radiante fora do tempo e do espaço.
Exercício do governo sobre a matéria física, vista como uma criação decorrente da decadência humana.
Gestos interpretados modernamente como devassidão eram atos piedosos baseados em uma mentalidade ontológica preservada em certas culturas.
O universo da sobrenaturalidade ou do fogo dominava o mundo das sensações, sendo este último apenas uma manifestação superficial e transitória.
Identificação do verdadeiro cosmos como o reino do mana.
Transformação de ações instintivas em efusão da rosée éternelle — orvalho eterno.
Revelação divina encontrada em elementos simples como uma pedra bruta ou um arbusto de espinhos.
A DEGRADAÇÃO DOS RITOS SEXUAIS
O cristianismo eliminou os ritos de sexualidade por reconhecer seu perigo, enquanto no neolítico sua prática no centro da liturgia era justificada por um ambiente ascético.
O ritual de sexualidade desenvolveu-se na civilização feminina sob a égide da divina Mama, encontrando resistência em povos de tradição pastoral.
Imaginação da divinização do sexo e da revelação de Deus através dele por mulheres consideradas santas.
Aceitação dessas visões pela teocracia pastoral apenas por necessidades de apostolado.
Afirmação de que o ato carnal possui um caráter mais místico para a mulher do que para o homem.
Adoração do sexo da suprema genitriz e soberana iniciadora como o gesto litúrgico que mais sacralizava.
A continuação da liturgia sexual fora da atmosfera iniciática original provocou a degeneração dos ritos e o desencadeamento de instintos bárbaros.
Referência à obra L'Initiation Sexuelle et l'Evolution Religieuse sobre a desnaturação de práticas destinadas a sobre-humanizar o homem.
Revestimento de turpitudes degradantes com o caráter de instituições veneráveis e divinas.
Prática de vícios modernos como atos religiosos ao longo dos séculos.
Esculturas sagradas em templos da Índia que apresentam coleções de obscenidades chocantes.
Práticas como o shaktismo de esquerda superam as orgias profanas ao serem realizadas como cerimônias de culto em santuários e lugares sagrados.
AS MISSAS NEGRAS
As missas negras no Ocidente representam o prolongamento do rito sexual do antigo matriarcato no seio do cristianismo, buscando fundir o culto da Mãe Divina com o do super-homem cristão.
Realização de hiérogamias divinizantes em grupos sociais que mantinham uma mulher sagrada como centro da liturgia.
Enxerto da liturgia da missa sobre velhos ritos por sacerdotes que superpunham o novo iniciador, Christ, à antiga iniciadora, a Mestre.
Utilização do rito eucarístico paralelamente à união sagrada com uma mulher divina.
As missas negras e os sabbats derivam das antigas festas neolíticas, embora os sabbats permaneçam puramente pagãos sob a figura do Grand Chasseur — Grande Caçador.
Os primeiros séculos do cristianismo foram marcados por sincretismos entre ritos iniciáticos pagãos e a liturgia cristã sob a influência de seitas gnósticas.
Origem provável das missas negras em comunidades onde a antiga Mama ainda era adorada.
Reverência à Mãe sob a forma do serpente, chegando à identificação de Jesus Cristo com o réptil no santuário.
Menção ao estudo Le Diable, successeur de Dieu sobre o caráter originalmente não sacrílego dessas formas religiosas.
A falha da religião neolítica consistiu em exaltar excessivamente o homem sem prever a transição inevitável da mentalidade ontológica para o erotismo empírico.