Pierre Gordon. La nuit des noces. Vieilles coutumes nuptiales. Leur signification — Leur origine. Paris: Dervy, 1950
A origem comum de diversas práticas culturais reside na concepção remota de que a defloração de uma mulher por seu próprio marido é considerada um ato desonroso.
O marido é visto como uma personalidade profana que não provê à esposa o mana transcendente durante o ato.
A ausência de um caráter sacramental na defloração conjugal relega a mulher a uma condição de ser inferior.
A aversão masculina ao ato de deflorar as próprias esposas é recorrente em diversos povos.
A impossibilidade de casamento para jovens virgens manifesta-se como uma consequência frequente dessa percepção.
A busca por conferir um sacramento à mulher sem os riscos de uma gestação pré-nupcial leva a práticas em que a defloração ocorre antes da puberdade.
Entre os Todas, no sul da Índia, um homem de clã distinto coabita com a menina impubere por uma noite no vilarejo.
O adiamento dessa operação para após a puberdade é considerado uma das maiores desonras possíveis.
A negligência do rito no tempo devido resulta em injúrias vitalícias e na recusa de pretendentes ao casamento.
Rivers e Westermarck registram essas observações sobre os Todas.
O ritual do tali praticado pelos Nayar na região de Malabar evidencia uma natureza estritamente religiosa e iniciática.
O deflorador, convocado antes do décimo ano da criança, permanece com ela por quatro dias e quatro noites.
O ato envolve o nó de uma placa de ouro, o tali, ou um objeto dourado chamado quete, ao redor do pescoço da menina.
O papel desempenhado é o de um personagem sacrossanto em um período regido pelo domínio ritual.
O vínculo cessa após as quatro noites e o homem é impedido de desposar a jovem posteriormente.
Westermarck fornece as referências para os estudos sobre os Nayar.
A defloração ritual de virgens impuberes é denominada talismo, refletindo uma valorização religiosa eminente da virgindade.
A interpretação de que a virgindade carece de valor para povos primitivos decorre de uma compreensão equivocada do problema.
A cessação da virgindade não é vista como um ato profano do cotidiano conjugal, mas como uma revelação de união com a divindade.
A influência do matriarcado em certos grupos sociais teria distorcido grandes conceitos iniciáticos originais.
O desenvolvimento desse tema foi explorado nas obras Iniciação sexual e Evolução religiosa.
A preservação da virgindade até o matrimônio constitui uma regra rígida em diversas populações, sendo sua ausência considerada uma mácula.
O fenômeno é observado especialmente em tribos pastoris e entre povos primitivos.
Westermarck detalha exemplos dessa conduta no capítulo sobre a incontinência sexual pré-conjugal em sua História do casamento.
A moralidade apresenta níveis distintos em sociedades de grandes caçadores vinculadas ao totemismo devido ao casamento tardio dos jovens.
Usos considerados aberrantes e de matriz religiosa concentram-se predominantemente em sociedades de estrutura matriarcal.
A síntese explicativa para tal diversidade cultural requer os princípios da etnologia ciclo-cultural e do iniciatismo para alcançar uma unidade teórica.