GORDON, P. L’image du monde dans l’Antiquité. Paris: Éd. Arma artis, 2005.
PASSAGEM À COSMOLOGIA
Sentido profundo dos ritos neolíticos de criação.
O mundo físico, como tal, não era suscetível de justificação lógica, explicando-se apenas por uma causa moral.
Buscar deduzir o mundo físico do universo dinâmico seria vão.
A compreensão do cosmos físico vinha da superação dos efeitos de sua causa moral, morrendo para ele para ressuscitar no cosmos de radiância.
As crenças e práticas iniciáticas articulavam-se ao ritual de criação, fornecendo certezas sobre o ser e o conhecimento.
As cosmogonias criacionistas.
As cosmogonias demiúrgicas.
As cosmogonias que admitem a intervenção de um demiurgo são, em parte, vinculáveis aos sistemas criacionistas, situando-se entre eles e as doutrinas emanacionistas.
Essas cosmogonias são numerosas e encontram-se em muitos povos, onde o demiurgo é frequentemente um animal.
Esse detalhe indica a origem dos criadores intermediários, relacionados a personalidades transcendentes sacralizadas por peles de animais.
O demiurgo seria um oficiante que realizava os ritos de criação, como o que portava o título de Prometeu na Ática.
Em tradições estonianas, o criador Wanna issa cria o harpista Wannemaine e o ferreiro Ilmarine, que forma a abóbada celeste e os astros.
O canto triunfal de Wannemaine faz nascer árvores, flores e pássaros, todos cantando e dançando logo após a criação.
A cena descrita evidencia uma tripla criadora antiga, muito evoluída, com um presidente, um criador do céu de metal e um que faz surgir os seres terrestres pela palavra.
As cosmogonias emanacionistas.
A cosmogonia fenícia de Môchos situa o Éter e o Ar como princípios, que geram o Tempo (Oulômos), bissexuado, que copulando consigo mesmo produz Chousôr e o ovo cósmico.
Chousôr, agindo como Demiurgo, abre o ovo e organiza o universo.
As visões emanacionistas permanecem no mesmo círculo de ritos já encontrados, deixando discernir seu valor como documentos sociológicos e históricos.
Uma cosmogonia atribuída a Hieronymus e Hellanicos principia com a água e a lama úmida, que constitui a terra, princípios masculino e feminino.
Da união dos princípios nasce um terceiro princípio, um dragão com cabeças de touro, deus e leão, chamado Tempo (Udom) ou Héracles (Melkarth).
O primeiro ser que surge representa o agente do rito de separação, figurado com elementos distintos correspondentes aos clãs da comunidade local.
Na cosmogonia órfica, Phanes, o primeiro ser a emergir do ovo primordial, tem cabeças de carneiro, touro e leão.
As cosmologias filosóficas e científicas.
Heráclito afirma que o mundo não foi feito por deus ou homem, sempre foi, é e será o fogo sempre vivo, aceso e apagado regularmente.
Heráclito tem em vista o fogo transcendente, o fogo-ouro, a energia radiante, substância dinâmica das coisas.
O universo fenomênico, para Heráclito, é apenas a realidade eterna subjacente, que é unidade e identidade integral.
Heráclito admite que os cosmos físicos, manifestações do fogo, se formam e aniquilam sem fim.
As visões de Heráclito são de fonte teocrática, deformadas com o tempo; seu aparentamento sacerdotal explica sua escolha do fogo como substância eterna.
Xenófanes restabelece as exigências fundamentais do espírito: o cosmos deve ser único, idêntico e eterno, sem geração ou corrupção.
Parmênides nega a mudança e suprime a realidade do tempo, afirmando que o ser verdadeiro é “indevindo e imperecível”, não desdobrando formas variadas para absorvê-las depois.
Melissos, seguindo Parmênides, faz do cosmos uma substância divina, afirmando como único real um mundo dinâmico subjacente ao universo dos sentidos.
As posições contemporâneas.
Valor perene do ritual antigo e da imagem antiga do mundo.