O homem atual, o homem-monstro cósmico, situa-se em um andar intermediário entre o inferno e o céu, o que o impede de apreender um e outro em sua verdade dinâmica, devendo necessariamente lançar um véu sobre eles.
Ao descrever esse véu como se fizesse parte da essência dos infernos e dos céus, os relatos se conformavam à noção original desses lugares.
No ponto de partida dos relatos, situavam-se, de um lado, homens em ascese nas trevas de uma caverna e, de outro, deuses residindo perto do fogo sacrossanto no cume da montanha.
Quando os seres “infernais” se tornaram fantasmas e os deuses personagens desencarnados, eles não deixaram de ser essencialmente homens, de modo que, do grau mais baixo dos infernos até a extremidade mais aguda do céu, esteve-se sempre em presença da humanidade.
As ideias relativas à transmigração e à metempsicose reforçaram essa concepção, que se afirma com extrema nitidez na Índia, país que melhor sentiu que o universo atual é uma criação do homem.
O cosmos físico não é obra da vontade divina para a espécie humana, mas sim a obra de Deus retocada por um demiurgo monstruoso.
O universo verdadeiro, concebido para a humanidade pelo pensamento eterno, é o do super-homem, o da energia radiante e do pensamento puro, o da liberdade sem entraves e do progresso vertiginoso e sem fim através da inesgotável esplendor do absoluto.
O espírito do homem pode mover-se à vontade nessa maya que é sua criação, esticando-a espacial e temporalmente a seu bel-prazer, pois nada conta nela senão o elemento dinâmico subjacente que a comanda.
Brahmã e os Budas podem tirar infinitamente mundos de si mesmos não porque sejam Deus, mas porque são homens que remontaram ao nível do super-homem e, como tais, governam o cosmos fenomênico, obra do homem desnivelado.
Nesses seres, discernem-se produtos da mais alta iniciação sacerdotal, cópias dos mais antigos “Reis do Mundo”, que eram também modeladores e “ligadores” de maya.