O mundo-debaixo-da-terra, lugar de provas e ascese por natureza, acabou por ser visto apenas como uma morada de morte quando a fervor iniciática baixou, esquecendo-se que suas trevas conduziam à radiância.
As personalidades iniciadoras, que submetiam os noviços às disciplinas metamorfoseantes, tornaram-se demônios ou seres tormentadores, perdendo-se de vista seu caráter fundamental de benevolência.
Kronos, o santíssimo divinizador das eras recuadas, tornou-se uma entidade má, o Senhor da Morte, o sinistro Balor da Irlanda, o deus do “mau olho”.
Os infernos não foram elucubrações da fantasia, mas uma experiência religiosa viva pertencente ao domínio ritual, povoados por homens que sofriam uma morte iniciática para renascer à luz.
Os mortos foram assimilados aos neófitos e, para ganhar a morada da vida eterna, sujeitaram-se às mesmas provas que os vivos cursavam no mundo subterrâneo.
As descrições mais antigas da residência dos mortos são rigorosamente exatas, pois se referem ao mundo subterrâneo dos vivos.
Os infernos helênicos são autênticos e triplos, referindo-se a uma região iniciática do Cáucaso (Flegeton e Piriflegeton) e à Terra Pura do noroeste (Ilha dos Bem-aventurados), além de infernos locais (Plutoneia, Charoneia, cavernas iniciáticas).
Na Caldeia, a epopeia de Gilgamesh mostra o herói atravessando primeiro o mundo subterrâneo (Arallū) para chegar ao Sol, chegando depois a uma ilha longínqua.
A ideia fundamental de que é preciso atravessar água ou um abismo após a morte atesta que os primeiros infernos se encontravam numa ilha, onde uma das grandes provas consistia em fazer-se transportar até ela.