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DIONISO
DETIENNE, Marcel. Dionysos mis à mort. Paris: Éditions Gallimard, 1977, 1998
Corre a voz de que a partida com os gregos não está encerrada: numa antropologia que engloba a história, seu papel deveria ser proporcional à parte que, mais ou menos explicitamente, tiveram num saber bem articulado já três séculos antes que o homem grego, verdadeiro herói hegeliano da odisseia fenomenológica, começasse a traçar a estrada que conduz da consciência natural à consciência filosófica.
O milagre nunca foi menos crível, mas o subversão da grecidade é vã se não procede do interior.
O Dionísio aqui invocado não se apresenta como um estranho nem como um figurante: os atalhos que ligam a caça à erótica, e conduzem dos canibais ao sacrifício cruento cozinhado pelos Titãs, percorrem um espaço que é o seu — o dos limites não menos do que das transgressões.
Um sistema de pensamento tão coerente quanto a ordem político-religiosa da cidade se funda numa série de gestos de divisão cuja ambiguidade consiste em abrir o espaço a uma transgressão possível no próprio momento em que assinalam limites.
Para descobrir o horizonte completo dos valores simbólicos de uma sociedade, é preciso redigir o elenco de suas transgressões, interrogar os desvios, encontrar os fenômenos de rejeição e recusa, circunscrever as lacunas de silêncio que se abrem sobre o implícito e sobre o saber que jaz nos níveis mais profundos.
Dos dois itinerários que conduzem às fronteiras, o segundo — o dos costumes alimentares, entre antropófagos, vegetarianos e comedores de carne crua — é, sem dúvida, o hoje melhor traçado.
Ele conduz ao espaço reorganizado do misticismo, em que as figuras de Pitágoras e de Orfeu, cessando de parecer esboços perdidos e formas exóticas, se organizam numa configuração da alternativa à ordem mundana do sistema político-religioso.
A cidade toda, em seu conjunto, se reconhecia no ato de comer a carne — as carnes de um animal doméstico cozidas no fogo —, que coincide com o sacrifício cruento e funda os valores dominantes de um mundo mantido a meio caminho entre natureza e sobrenatural.
As margens do sacrifício são um campo privilegiado para seguir os rastros de Dionísio: nas distorções que ele multiplica entre doméstico e selvagem, homens e bestas, deuses e mortais, degolamento discreto e caça violenta, cozido e cru — e, na variante órfica, no interior do próprio procedimento culinário, entre espeto e caldeirão.
Mais tarde, o dionisismo — que mesmo em seus mistérios nunca inclina para uma renúncia absoluta ao mundo — esboça, em seus itinerários no interior da cidade, o trajeto de que se servem os Cínicos no século IV, quando se empenham no desmantelamento do modelo antropológico dominante por meio de um elogio agressivo do comer cru e do endocanibalismo familiar.