DAUGE, Yves-Albert. Virgile, maître de sagesse: essai d'ésotérisme comparé. Milano: Arche, 1984
O desfile de figuras maravilhosas do ser superior nas diversas religiões e filosofias: o Sábio verídico do estoicismo ou do Vedanta, o Yogi integral segundo a Bhagavad Gita, o Homem divino da época helenística e romana, o Anthropos teleios da Gnose, o Homem de fogo da Cabala, o Homem “espiritual” do paulinismo, o “Vencedor” segundo o Apocalipse, o Verus Adam do esoterismo cristão, o verdadeiro Arya ou o Brâmane autêntico segundo o budismo, o Bodhisattva segundo o Mahayana e o Tantrismo, o “Antropocosmo realizado” do esoterismo egípcio, o Homem Universal ou o Homem de Luz do sufismo, o tchenn-jen e o cheun-jen* do taoísmo.
A redescoberta desse Homem divino em todas as tradições e espiritualidades como um tema fundamental, por ser, segundo
Rumi, “o objetivo do universo”, “o coração do mundo”.
A natureza do Homem Perfeito segundo o sufismo
A definição da sua natureza como “o homem que se torna plenamente consciente da sua unidade essencial com o Ser divino à imagem do qual é feito”.
A concepção do Homem Perfeito como “a perfeita imagem de Deus e contém em si todas as coisas”, que “reúne em si a forma de Deus e a forma do universo”, sendo “o espelho pelo qual Deus é revelado a Si mesmo e, com isso, a causa final da criação”.
A descrição do Homem Perfeito como “a reunião de todos os mundos divinos e naturais, universais e parciais”, sendo “o livro no qual estão reunidos todos os livros divinos e naturais”.
O papel do Homem Perfeito segundo o sufismo
A sua função de ser “um espelho da soberania de Deus”, colocado “como um istmo entre a luz e a obscuridade”.
A ideia de que é “pelo homem deificado, khalifa* de Deus no mundo, conhecedor dos segredos e espelho dos atributos, que 'a Evolução toma consciência de si mesma'”, sendo por isso a sua razão e o seu fim: “a testemunha 'que Deus Escolheu para O representar visivelmente perante todo o resto da criação — criatura privilegiada que simboliza realmente, de dentro para fora, o Deus que ela irradia e do qual as outras criaturas não devolvem senão imagens, reflexos'”.
A caracterização do Homem Perfeito como “o lugar na terra da irradiação divina mais completa”, pois “atualiza as perfeições que nos homens ordinários só existem em estado virtual”.
A formação do Homem Perfeito segundo o sufismo
A concepção da sua formação como a do homem que despertou e que viaja, lutando contra os obstáculos interiores e exteriores para realizar a purificação alquímica do seu ser, tornar-se digno de Deus e libertar a Luz do domínio das trevas.
A citação de Mohammed Iqbal: “Esculpe de novo a tua forma antiga, examina-te a ti mesmo, cria um ser vivente. Só um ser assim vivente é digno de louvor, senão o fogo da existência não é senão fumo”.
A citação de Mestre Eckhart: “Levanta-te, pois, alma nobre! Calça os teus sapatos de salto que são o Intelecto e o Amor, e salta por cima do culto das tuas capacidades mentais, salta por cima do teu entendimento, e salta para dentro do coração de Deus”.
A arte do Homem Perfeito segundo o sufismo
A definição da sua arte como a de que “o homem em que o 'Eu' atingiu a sua perfeição relativa ocupa um lugar autêntico no coração da energia criadora divina, e possui assim um grau de realidade muito mais elevado que as coisas que o rodeiam”, sendo “o único capaz de participar conscientemente na vida criadora do seu Criador”.
A descrição dessa arte como a da onipotência benéfica: “Um homem que, renunciando a toda a sensualidade e obedecendo cegamente à vontade de Deus, conseguiu participar na ação que exercem as Inteligências celestes, possui por isso mesmo a Pedra filosofal; nunca lhe falta nada, todas as criaturas da terra e todas as forças do céu lhe estão submetidas”.
A identificação do Homem Perfeito como o Cosmocrator, o Cakravartin*, o Polo da manifestação e da criação: quer “aja” ou “não aja”, as Energias divinas por ele se espalham e se impõem.
O arquétipo do herói na Antiguidade clássica
A identificação do homem superior na Antiguidade clássica com o verdadeiro herói, cujo arquétipo é Heracles/Hércules.
A definição do herói como sendo de raça divina e de energia sobre-humana, que busca, para além do mundo carnal e material onde nasceu, reencontrar o Ser celeste de onde provém.
A sua luta contra as paixões e o superar de várias tentações para cooperar com as forças do alto, seguindo a via do Conhecimento, da libertação e da transfiguração.
A luta complementar contra todas as manifestações do mal exteriores a ele, pondo ao serviço dos homens o domínio do real, a invulnerabilidade e a sabedoria ardente que adquiriu.
A sua capacidade única de reinar justa e eficazmente sobre o mundo, transformando-o graças ao irradiar benéfico e à gloriosa imperialidade que emanam naturalmente do seu ser.
O objetivo de toda a sua energia: conquistar a plenitude da divindade, tornar-se deus para agir como Deus.
A aplicação do tema do Homem Perfeito a Eneias pela sua natureza
A sua natureza de raça jupiteriana, que busca passionadamente elevar-se ao nível do Grande Deus para apresentar aos homens a “perfeita imagem”.
O seu desejo, como filho de Vênus — que é o seu Anjo pessoal e o seu Eu divino —, de interiorizar a deusa para obter o poder do Andrógino espiritual, chave do acesso ao Deus supremo.
A sua união com as forças do alto, com as Inteligências celestes, sendo o cooperador ideal, conforme o verso “Eu sou aquele que o Olimpo reclama”.
A sua natureza verdadeiramente heróica, de um deus que se faz, de um espelho que se transforma em sol: “ele reúne em si todos os mundos divinos e naturais”.
A aplicação do tema do Homem Perfeito a Eneias pelo seu papel
A sua missão que vai muito além de fundar outra cidade, uma segunda pátria, devendo encontrar a sua Verdadeira Personalidade, penetrar na corrente das Energias divinas, perceber os Arquétipos celestes.
A necessidade de fazer passar para o tempo, para a história, o fluxo criador, incarnar o mais profundamente e duradouramente possível as Ideias-Forças emanadas da Alma do Mundo, exercer na terra uma missão de salvação e de transfiguração.
A experiência crucial no livro VI, no Elísio, onde vê o Romano em si — “majestade” jupiteriana e “beleza” apoliniana — e a Roma celeste, instaurando-a no seu coração como ideal permanente.
A compreensão das consequências dessa dupla visão: “atualizar as perfeições” contempladas, agir como “a testemunha que Deus Escolheu para O representar visivelmente”, tornar-se o seu khalifah* no mundo, mediador incessante entre Luz e trevas.
A caracterização do seu comportamento por três verbos: fugere (fugir aos elementos de alienação), ferre (suportar as provas necessárias) e superare* (vencer e passar a um plano superior).
O tema essencial do processo de despertar, da luta contra o esquecimento, da vigilância permanente, do “olhar divino”, do acesso à condição de “Vigia”.
O paralelo entre o cenário do “Hino do Pérola” e o do livro IV da Eneida, e a importância decisiva da lembrança das visões para o seu futuro.
A comparação da ascese eneana com a arte japonesa do aikido*, como a via da energia primordial e da harmonia pelo amor, que une santidade e eficácia para chegar à harmonia cósmica e à Paz essencial.
A descoberta da vocação do Romano de se religar à Fonte intemporal e se inserir no Circuito Energético Divino, fundamentada no desejo ardente, na pietas* e no SIM ao chamamento dos Olímpicos.
A sua condição de secundus Deus, de verdadeiro Artifex*, de olhar e mão da Alma do Mundo, mestre do tempo e transfigurador da matéria.
A identificação do escudo solar como o correspondente à “Pedra filosofal”, objeto mágico que é receptáculo e difusor das forças do alto, ressonador-transformador da Energia universal.
A múltipla eficácia do escudo: poder de acelerar processos evolutivos, de manter a comunicação com o Céu, de revelar e recordar os Arquétipos, de dotar o herói de um corpo celestial e radiante, de ser um astro santo indicando a presença do Rei do Mundo.
A identificação do Cosmocrator* com o Romano apolílnico no centro do escudo, rodeado pela sua “Luz da glória”, sendo ao mesmo tempo Augusto, Eneias e o ícone do grande Romano “anônimo” que é o Homem Perfeito.
A interpretação do plural Titania astra* como os diversos aspectos do sol, sendo o sol do Elísio o sol “místico”.
A assunção progressiva por Eneias desses diferentes aspectos solares: primeiro como “mensageiro” do sol, participando do astro místico; depois, transfigurando-se com o escudo flamejante, tornando-se hipóstase do sol triplo, manifestando o seu aspecto demiúrgico e mediador.
A oposição entre Eneias, figura solar, e Turno, personagem lunar, e Latinus, imagem de um sol involuído.
A concepção do Sol como o “Décimo terceiro deus” que resume o poder dos outros, com o número 12 a encontrar o seu centro e a sua chave no 13.
A presença deste simbolismo na Eneida: Latinus com doze raios é superado por Eneias, luz do Um; o raio de doze elementos é sucedido pelo escudo, concentração do fogo artista; os Gregos descritores dos signos zodiacais são superados pelo Romano, representante do Sol.
A hipótese do livro XIII não escrito como o mais importante, síntese e polo da obra, relatando os três anos de reinado de Eneias como Cakravartin* e a sua apoteose como passagem para outra ordem de atividade.