Paul Diel: O SIMBOLISMO NA MITOLOGIA GREGA
A regressão do intelecto previdente ao estado de ofuscamento afetivo e o desencadeamento perverso resultante, consequências nefastas da revolta de Prometeu e do rapto do fogo, são simbolizados pela história de Pandora e de Epimeteu.
Ultrajados pela ofensa do Titã-lntelecto, os deuses do Olimpo enviam um flagelo aos mortais, Pandora, uma mulher criada artificialmente, portanto sem alma, mas dotada dos mais sedutores encantos.
Pandora simboliza a tentação perversa à qual os homens, criaturas de Prometeu, estão expostos. Enquanto mulher, ela simboliza a terra, os desejos terrestres; sem alma, sua significação é equivalente ao simbolismo “morte da alma”. Pandora representa a sedução banal que faz sucumbir o ser tornado consciente, quando, esquecido do espírito, exalta o intelecto. Na verdade, esta tentação, simbolicamente enviada pela divindade, é inerente à psique humana enquanto criação do intelecto revoltado. Pandora é o artifício sedutor que o homem constrói com a ajuda dos desejos exaltados, é o símbolo da imaginação exaltada, o monstro de cujo aspecto aterrorizante e sedutor falam todos os mitos. Esse flagelo, tão monstruoso quanto sedutor, é enviado por Zeus logo após o rapto do fogo. Isto é, a exaltação imaginativa (Pandora) é a consequência legal (a vontade de Zeus) da intelectualização revoltada (rapto do fogo).
O fogo não pode ser roubado de Zeus — o intelecto não pode rebelar-se contra o espírito — sem que a imaginação perversa se manifeste segundo as leis inerentes à natureza humana. Se o fogo é separado da luz, se o intelecto não é guiado pelo espírito clarivi-dente, perde sua lucidez previdente, fica cego e torna-se imaginativo. O intelecto, quando ocupado unicamente dos bens materiais, tem ótimas condições de descobrir os meios de satisfação que melhor se adaptam aos fins acidentais; mas quando o fim essencial, a adaptação ao sentido diretor e evolutivo da vida, está ausente, o esforço, por mais engenhoso que seja, é pura insensatez: na ausência da direção espiritual, a previdência empregada aos meios de realização astuciosa é apenas cegueira, vã imaginação. O homem já não sabe, somente imagina, o que poderia verdadeiramente ser útil, e tudo aquilo que cria através de sua previdência cega se voltará finalmente contra ele mesmo, revelando-se, num futuro mais ou menos próximo, não somente inútil, mas nefasto e perigoso. A culpabilidade, agora banalizada, tornando-se tédio, signo da perda da verdadeira satisfação e de sua alegria, preencherá o vazio interior seja pela agitação sem freios, seja pela luxúria e pelo lucro; o intelecto ofuscado, transformado em imaginação, exalta-se, e Pandora o seduz.
O mito desenvolve este tema central da história de Prometeu através de imagens muito expressivas. Prometeu, o previdente, tem um irmão, Epimeteu. Conforme a significação de seu nome, este irmão tem por característica agir antes de refletir. Epimeteu é o símbolo do intelecto banalizado, bestializado, do pensamento desprovido de previdência; deixa-se guiar unicamente pelos desejos do momento, pela aparência de utilidade, pela imaginação. Segundo a lei da ambivalência que governa toda exaltação, ele está inseparavelmente ligado, como um irmão a outro, a Prometeu, o intelecto revoltado, sendo sua contrapartida legal: a estupidez cega, a exaltação imaginativa. Epimeteu não resistirá a Pandora, a despeito das advertências de seu irmão, que o previne contra tal imprudência.
De acordo com o mito, Prometeu possui previdência suficiente para desconfiar do presente de Zeus-espírito, o qual não vê como representante da justiça inerente, mas o inimigo a temer. O intelecto, previdente e orgulhoso em sua revolta, recusa-se a acolher Pandora, a sucumbir diante da sedução aparente da imaginação exaltada. Os homens providos de inteligência utilitária estão cheios de desprezo por esse amor exaltado do “presente do espírito”, da imaginação perversa que faz do nervoso um “iluminado”. No entanto, o desprezo em relação ao espírito é apenas uma contrapartida do amor exaltado e tem como traço comum a forma mais monstruosa da tentação imaginativa, a vaidade. Revoltado, o intelecto é imediatamente seduzido pelo monstro e, sem se dar conta, torna-se sua vítima. Seu destino não será a iluminação nervosa mas a cegueira banal, não pelo amor exaltado do espírito, mas pelo amor exaltado dos desejos múltiplos. A lei do espírito, a “vontade de Zeus”, se cumprirá: o irmão simbólico de Prometeu deverá sucumbir à tentação. Sentindo-se vaidosamente realizado, Epimeteu se mostrará ingênuo o bastante para receber o flagelo monstruoso como o mais desejável dos presentes. Ele se casa com Pandora: o intelecto ofuscado pela intensidade da exaltação “desposa”, elege, a exaltação imaginativa.
A consequência dessas núpcias só pode ser o desencadeamento da perversidade. Considerando que as figuras míticas são a personificação das qualidades positivas ou negativas da psique humana, é a perversão dos homens, criaturas de Prometeu, que dará continuidade a essas núpcias simbólicas, como consequência legal do rapto do fogo. É isso o que está indicado no mito: Pandora traz consigo uma caixa que contém um presente destinado a quem se deixar seduzir. A caixa é símbolo do subconsciente. Com efeito, é o subconsciente que encerra todas formas de perversão, auxiliado pela consciência cega representada por Epimeteu. Todos os detalhes do mito de Epimeteu completam o mito do processo de perversão do ser consciente, criatura de Prometeu, pela história da criação da instância subconsciente: a caixa (subconsciente) é levada por Pandora (exaltação imaginativa) e recebida por Epimeteu (consciente ofuscado e cego). Deformação doentia do inconsciente, o subconsciente cria-se a partir do advento do ser consciente, capaz de uma escolha errônea em relação ao sentido evolutivo, capaz de multiplicar seus desejos de uma maneira insensata (criatura de Prometeu) em razão da sedução dos desejos exaltados (Pandora), sedução exercida sobre o consciente enfraquecido em sua resistência (Epimeteu). Para festejar as núpcias, Pandora abre sua caixa. Todos os vícios escapam e se propagam sobre a terra.
Estes vícios constituem as diversas formas de perversão pela deformação das três pulsões e dos desejos que deles derivam. Elas não são expressamente denunciadas, mas encontram-se indicadas pelo conjunto da simbolização. Os vícios são a consequência da deformação do espírito, a vaidade do intelecto revoltado. A deformação sexual é representada pela mulher sem vida anímica. Mesmo sendo símbolo da exaltação imaginativa em geral, Pandora permanece o símbolo específico da eleição falsa e da devassidão. E enfim a desagregação social, a tendência dominadora que tiranicamente coloca um homem contra outro através da exaltação das necessidades terrestres. Essa hostilidade mútua, o empenho em dominar o outro, é a inevitável consequência do desvio imaginativo do esforço intelectual que, segundo sua verdadeira destinação, deveria aplicar-se ao domínio das forças da natureza, única forma de dominação que implica o interesse comum de todos os homens. Ele deveria, sob a égide do espírito, reunir os homens num esforço coletivo para uma vida realmente comunitária.