A civilização grega refletida nos poemas homéricos apresenta uma cultura característica que parece atingir o ponto mais alto possível sob as condições de caráter nacional e circunstâncias externas.
Poemas homéricos como fronteira entre o amadurecimento de um desenvolvimento antigo e uma nova ordem constituída.
Retrato idealizado de um passado prestes a desaparecer inteiramente.
As profundas transformações dos séculos seguintes podem ser medidas por resultados finais e forças subjacentes deduzidas de sintomas individuais.
Reconhecimento das condições necessárias para uma reorganização completa da vida grega.
Ascensão de raças anteriormente menos importantes e estabelecimento de novos reinos por direito de conquista sobre ruínas antigas.
Colonização em ampla área como expansão da vida grega e aceleração do desenvolvimento nas colônias.
Evolução do comércio e da indústria para satisfazer novas demandas.
Surgimento de novos elementos populacionais e transição da monarquia para a aristocracia, tirania e democracia.
Contato intensificado com povos estrangeiros e influências diversas em várias direções.
Os grandes movimentos históricos produziram novas correntes na vida intelectual e o esforço para se libertar da tradição consolidada na cultura homérica.
Rompimento da tirania da convenção épica na esfera da poesia.
Abandono do ritmo de verso formal e do vocabulário de fórmulas e imagens prontas.
Mudança de perspectiva com o poeta tornando—se a figura central de sua própria obra.
Invenção de ritmos naturais para expressar emoções em aliança estreita com a música.
Descoberta da plenitude das capacidades gregas e uso livre das mesmas.
Progresso das artes plásticas na capacidade de dar forma visível ao mundo imaginado da beleza.
Ruínas do mundo clássico como revelação mais impressionante do valor permanente da arte grega do que as realizações literárias.
A religião grega não permaneceu inalterada diante da atmosfera geral de mudança, embora a realidade interna dessas transformações permaneça parcialmente oculta.
Multiplicação dos objetos de culto religioso em comparação ao período homérico.
Desenvolvimento de cerimoniais mais suntuosos e elaborados em conjunção com as belas artes.
Testemunho de templos e esculturas sobre o aumento do poder e importância da religião.
Mudança no pensamento religioso evidenciada pela fama e autoridade do oráculo de Delfos.
Nova interpretação da religião sob influência de um senso moral aprofundado em Ésquilo e Píndaro.
Período de mentalidade mais religiosa em que a mente recua para crenças em poderes invisíveis em busca de consolo diante da adversidade.
A obscuridade do período de crescimento esconde a origem de crenças sobre a alma que diferem fundamentalmente da concepção homérica.
Construção de um culto regular à alma desencarnada e de uma crença na imortalidade.
Ressurgimento de elementos religiosos submersos em conjunção com novas forças para criar uma terceira via.
O culto às divindades ctônicas que habitam o interior da terra constitui a principal característica nova no desenvolvimento religioso pós—homérico.
Divindades ctônicas como posses antigas da fé grega e verdadeiras divindades locais da pátria.
Transferência épica desses deuses para uma região subterrânea distante e inacessível além do Okeanos.
Domínio de Aïdes e da terrível Persephoneia como guardiões dos mortos sem influência direta na vida terrena.
Cultos locais que ignoram a sistematização uniforme de um reino geral dos deuses estabelecida pela épica.
Natureza dos deuses do mundo inferior ligada a uma população agrícola e sedentária.
Bênção ao cultivo do solo e recebimento das almas dos mortos no submundo.
Zeus Chthonios como o nome mais exaltado entre os habitantes do interior da terra.
Uso de Zeus como termo generalizado para deus combinado a adjetivos particularizantes em cultos locais.
Referência a Zeus do mundo inferior na Ilíada e na Teogonia de Hesíodo.
Oração ao Zeus Ctônico prescrita para o camponês beócio durante o preparo dos campos para a semeadura.
Os deuses do mundo inferior eram frequentemente referidos por apelidos afetuosos ou eufemismos conciliatórios para velar o lado sombrio de sua natureza.
Títulos lisonjeiros para Hades e adoração de Zeus do submundo como Zeus Eubouleus, Bouleus ou Klymenos.
Zeus Amphiaraos e Zeus Trophonios como divindades da terra que perderam parte do status de deuses para desenvolver poderes oraculares como heróis.
Hades como manifestação local de Zeus Chthonios variando de nome conforme o local de culto.
Centros de culto em Élis e Triphylia contribuindo para a propagação do culto ctônico.
Hades como deus da fertilidade da terra e senhor das almas sob nomes como Plouton, Plouteus ou Zeus Plouteus.
Ge ou Gaia representava a divindade feminina do submundo preocupada com o bem—estar dos vivos e dos mortos.
Atribuição de frutificação dos campos e domínio sobre as almas dos mortos.
Templos em honra em Atenas e Olímpia.
Personalidade marcada pela imprecisão natural das divindades primitivas.
Suplantação por deusas da terra de forma mais inteligível e recente.
Retenção de poderes mânticos exercidos a partir do abrigo de espíritos e almas.
Deméter e Coré ocupam o lugar mais importante no culto do submundo, aparecendo frequentemente associadas a divindades masculinas variadas.
Culto solene de Deméter e Zeus Klymenos em Hermione.
Associação constante das duas deusas em oposição à variação dos nomes dos deuses masculinos.
Mudança na emoção e serviço religioso comprovada pela popularidade do culto de Deméter e Persephoneia.
Visão homérica de Persephoneia apenas como rainha sombria dos mortos e de Deméter unicamente como deusa da fertilidade.
Associação estreita pós—homérica onde ambas protegem as colheitas e cuidam das almas.
Propagação da fé por migrações e missões regulares a partir de centros como Elêusis.
Tendência de Deméter assumir o papel de Gaia e entrar em conexão próxima com o reino das almas.
O aumento do número de seres do submundo e a expansão de seu culto aproximaram os mundos superior e inferior para os gregos.
Reaparecimento da crença de que cavernas terrestres eram moradas acessíveis da divindade.
Vestígios de cultos em cavernas como as de Amphiaraos, Trophonios e Zeus no Monte Ida.
Existência de entradas diretas para o submundo e fendas para a passagem de almas em diversos locais.
Tradição de seres do submundo habitando um abismo no Areópago em Atenas.
Negação da separação homérica entre vivos e mortos em Hermione, onde a proximidade do mundo espiritual dispensava o pagamento ao barqueiro Caronte.
A localização do submundo tornou—se menos uma questão de fantasia e mais uma presença próxima aos sentidos por meio de festivais e veneração constante.
Deuses inferiores desejando e retribuindo a veneração de indivíduos e cidades.
Culto às almas dos mortos expandido além dos costumes da era homérica em estreita ligação com os deuses ctônicos.
O dever primordial dos sobreviventes é enterrar o corpo conforme o costume, prática levada com maior seriedade do que no período homérico.
Devolução dos corpos de inimigos caídos como dever religioso.
Negação de sepultamento considerada um ultraje extremo, exemplificado pela vingança popular contra generais após Arginousai.
Obrigação legal e religiosa de filhos enterrarem seus pais e oferecerem presentes no túmulo.
Invocação de maldições contra quem deixa cadáveres insepultos no festival de Demeter Bouzyges.
Obediência a leis não escritas da religião para evitar o abomínio, conforme ilustrado por Antígona.
Crença fundamental de que a alma do insepulto não encontra descanso e assombra a região.
Punição severa de criminosos e traidores com a negação de sepultamento no solo pátrio para impedir o culto familiar.
As cerimônias fúnebres preservaram essências primitivas com novos detalhes que acentuavam a solenidade do ato.
Lavagem, unção e vestimenta do corpo por mulheres da família.
Exposição cerimonial em um leito no interior da casa.
Uso de manjerona e ramos de videira por razões supersticiosas em Atenas.
Colocação de vasos de unguento de formato fino nos túmulos.
Presença de água pura na porta para purificação de quem entrava em contato com o cadáver.
Ramos de cipreste na porta como aviso de presença de corpo na casa.
Uso de guirlandas e faixas na cabeça do morto como sinal de respeito à santidade do falecido.
O propósito real da exposição do corpo era a realização do lamento fúnebre, que sofreu restrições legais para evitar excessos.
Aumento da pompa fúnebre sob o governo dos Eupatridai.
Legislação de Sólon para limitar a lamentação extravagante e o número de participantes.
Proibição de expressões violentas de dor e de cantos fúnebres profissionais.
Crença antiga de que a alma presente se agradaria de demonstrações violentas de luto.
Restrições derivadas de razões religiosas ou supersticiosas para conter o culto ao espírito do morto.
O cortejo fúnebre ocorria na manhã do terceiro dia, transportando o corpo e o leito para fora da casa.
Necessidade de controle legal sobre a ostentação excessiva nas procissões.
Representação de funerais em vasos do estilo Dipylon com carros puxados por cavalos e acompanhantes armados.
Restrição da presença de mulheres ao parentesco imediato até a terceira geração em Atenas.
Uso de companhias contratadas de carpideiras cárias em alguns contextos.
Exigência de silêncio durante o trajeto em Ceos.
A prática de enterrar o corpo sem queimar coexistiu com a cremação homérica, visando a preservação parcial dos restos.
Coleta cuidadosa dos ossos após a pira para sepultamento em urnas ou caixas.
Uso de caixões de argila cozida ou madeira como costume de origem estrangeira.
Uso nativo mais antigo de depositar o corpo diretamente na terra sobre um leito de folhas ou em câmaras de rocha.
A alma mantém conexão com o corpo habitado, motivando a provisão de implementos domésticos e vasos no túmulo.
Ausência de métodos para preservação perpétua como o embalsamamento, exceto como arcaísmo em reis espartanos.
Após o sepultamento, a alma integra a companhia invisível dos seres superiores, crença de antiguidade primordial na Grécia.
Formação de um grupo de culto especial composto exclusivamente pelos descendentes e família.
Memória de tempos em que o sepultamento ocorria dentro das casas.
Inexistência de sensibilidade dolorosa à purificação ritual em eras mais remotas.
Sepultamentos dentro das muralhas permitidos em certos estados dóricos.
Manutenção de túmulos familiares em terrenos murados ou propriedades rurais.
O túmulo é considerado um local sagrado onde gerações posteriores adoram as almas dos antepassados.
Colunas funerárias, árvores e bosques circundando o túmulo como refúgios agradáveis para as almas.
Oferendas de libações de vinho, óleo e mel iniciadas no momento do funeral.
Sacrifício de animais como bois e ovelhas, por vezes proibido ou limitado por leis como as de Sólon.
Banquete fúnebre realizado pela família após ritos de purificação.
Presença invisível da alma do morto como anfitriã do banquete.
Costume de proferir apenas elogios ao falecido por temor à sua presença.
Refeições oferecidas no túmulo no terceiro e nono dias após o funeral.
Encerramento do período de luto no nono dia em geral, ou no décimo primeiro em Esparta.
O dever de cuidar da alma do falecido estende—se além das cerimônias imediatas por meio de ritos recorrentes.
Oferenda de coisas costumeiras pelo herdeiro como dever mais sagrado.
Banquete tradicional dos mortos no trigésimo dia de cada mês.
Celebração anual nos Genésia, no aniversário do morto, importante para a psique do falecido.
Inexistência de abismo intransponível entre a vida e a morte na concepção familiar.
Festivais públicos em Atenas, como os Genésia e os Nemésia, homenageavam coletivamente as almas dos mortos.
Antestéria como principal festival dos mortos na primavera, época em que as almas subiam ao mundo dos vivos.
Dias de impureza inadequados para negócios, com templos fechados.
Uso de medidas de proteção como mastigar folhas de espinheiro e passar piche nos umbrais das portas.
Oferendas individuais de cada família aos seus próprios mortos.
Sacrifício de vegetais cozidos e sementes no dia das Chytrai, dedicado a Hermes como guia dos mortos.
Entretenimento doméstico dos fantasmas seguido de expulsão ritual ao fim do festival.
Uso da fórmula Begone ye Keres para despedir as almas, preservando um nome primevo esquecido por Homero.