Essa reunião em nome de Orfeu para oferecer um culto especial a Dioniso foi obra de seitas que, em associação privada, praticavam um culto que o culto público e oficial do Estado ou desconhecia ou desdenhava.
Havia muitas tais associações, de caráter muito variado, que se mantinham afastadas da religião organizada da comunidade e eram toleradas pelo Estado.
Via de regra, eram deuses estrangeiros os que assim eram cultuados, geralmente por estrangeiros que desse modo mantinham o culto especial de suas terras de origem.
Dioniso, o deus das seitas órficas, havia há muito cessado de ser um estrangeiro nos países gregos; desde sua chegada da Trácia havia sido refinado e amadurecido sob o sol humanizador da Grécia, até se tornar um deus grego.
Uma segunda onda de influência rompeu sobre o deus há muito helenizado, e essa onda o culto oficial ou não tinha poder ou não tinha vontade de assimilar.
Não há razão para crer que as seitas órficas foram formadas em estados gregos antes da segunda metade do século VI — aquela era crítica de transição em que modos primitivos e mitológicos de pensamento se desenvolviam em teosofia.
Onomacrito, o fornecedor de oráculos na corte de Pisístrato, fundou o culto secreto de Dioniso — o que parece se referir à primeira fundação de uma seita órfica em Atenas; e a autoria real dos poemas órficos é com muito mais frequência atribuída a certos homens do sul da Itália e da Sicília, ligados às sociedades pitagóricas.