Os oito mitemas orféicos são: Orfeu, da Trácia, descendente de uma Musa e de um deus do vinho e/ou possivelmente de Apolo; Orfeu entre os Argonautas, não exatamente um deles, não um herói nem um matador, mas aquele que “tocava para os remadores uma medida para o longo golpe dos remos”; Orfeu, a quem “as árvores não desobedeciam, as rochas sem vida o seguiam e os rebanhos das bestas da floresta” por causa de sua música; Orfeu, o sacerdote, primeiro de Dionísio e depois de Apolo, estudante de Moisés, profeta, simulacro de Cristo, doador de religião, autor de dogma e hino, ídolo de uma seita, mestre de um Lebensweg; Orfeu, poeta, especialmente poeta cosmológico, técnico da poesia a quem se atribuem a invenção do alfabeto e as variedades da métrica poética; Orfeu com Eurídice — viajante ao submundo, amante extraordinário, herói fracassado mas psicopompo, amante desconfiado, sofredor inconsolável e solitário; Orfeu, misógino, dilacerado pelas furiosas mulheres, membro a membro, por razões diversas, incluindo o desdém por elas, a exclusão delas de seu culto e a preferência pelo amor dos rapazes; e a cabeça cantante de Orfeu, que foi parar na ilha de Lesbos e continua cantando após seu desmembramento, sendo ali venerada junto com sua lira e também nos céus como a constelação Lyra.