Da astrologia, da medicina dos humores, da tradição e da iconografia, das compilações dos mitógrafos, é possível compor as características principais de Cronos-Saturno como imagem arquetípica do senex.
Seu temperamento é frio — a frialdade pode expressar-se também como distância; o errante solitário, posto de lado, excluído
A frialdade é também a realidade fria, as coisas exatamente como são — e no entanto Saturno está na borda mais distante da realidade
Como senhor do mais profundo, vê o mundo de fora, de tal profundidade de distância que o vê de cabeça para baixo — mas estrutural e abstratamente
A preocupação com estrutura e abstração faz dele o princípio de ordem — seja pelo tempo, pela hierarquia, pela ciência exata e pelo sistema, pelos limites e fronteiras, pelo poder, pela interioridade e reflexão, ou pela terra e as formas que ela dá
O frio é também lento, pesado, chumboso e seco ou úmido reumático — sempre o coagulador, por meio da densidade, da lentidão e do peso, expresso pelo humor da tristeza, da depressão ou da melancolia
É negro, invernal e noturno — e no entanto, por seu dia, o sábado, anuncia o retorno da luz sagrada do domingo
Sua relação com a sexualidade é dual: por um lado é patrono de eunucos e celibatários, sendo seco e impotente; por outro é representado pelo cão e pelo libidinoso bode, e é deus da fertilidade como inventor da agricultura, deus da terra e do camponês, da colheita e das Saturnálias, governante de frutos e sementes
A colheita, porém, é uma acumulação — o produto maduro e a recolha podem mostrar qualidades de avareza e tirania: acumular significa reter e a bolsa da mesquinharia, fazer as coisas durar através de todo o tempo
Saturno governa moedas, cunhagem e riqueza; daí as características de avareza, gula e voracidade — Saturno é bhoga, em sânscrito, “comendo o mundo”, e identificado com Moloque, o que por seu lado positivo exige o sacrifício extremo e pode ser compreendido como Abraão e Moisés, o mentor patriarcal que exige o extremo