O termo mito invadiu amplamente a linguagem cotidiana e, ao vulgarizar-se, perdeu seu sentido antigo e primeiro, passando a designar sobretudo um conjunto impreciso de proposições que se opõem à realidade.
Essa vulgarização, que atinge por vezes até as linguagens mais técnicas, acompanha e ao mesmo tempo oculta um grande interesse científico pelo mito entendido em seu sentido tradicional, como forma essencial do pensamento humano.
Nos programas universitários de ciências humanas e sociais, em disciplinas como história das religiões, etnologia, antropologia, sociologia, psicanálise, história e ciência política, a noção de mito é raramente deixada de lado, sendo abordada, analisada e debatida antes de abrir-se a aplicações práticas capazes de renovar singularmente os campos de estudo.
Os programas de literatura seguem a mesma regra, e em todos os níveis de formação e em todas as universidades ao menos um curso ou seminário costuma ser dedicado ao estudo de um mito literário.
Nos currículos de letras clássicas, em grego ou latim, de letras modernas, em literatura francesa ou comparada, e de línguas como inglês, alemão, espanhol e italiano, esse tipo de estudo ganhou lugar cada vez mais importante ao longo das duas últimas décadas.
Entre os mitos estudados, alguns, como Édipo,
Fausto e Don Juan, tornaram-se passagens praticamente obrigatórias de um percurso literário.
Apesar desse sucesso e dessa inflação, o campo de estudos permanece relativamente mal definido, tanto epistemológica quanto metodologicamente.
As pesquisas das ciências humanas permitiram chegar a definições relativamente precisas e estabelecer métodos comprovados, mas esse conjunto se fissura quando se trata de transpor tais definições e métodos para o terreno da literatura.
As relações entre mito e literatura, e em particular a noção de mito literário, sofrem de muitas ambiguidades e são objeto de tomadas de posição variadas e contrastantes.
Mesmo quando os desacordos sobre esse primeiro ponto são pequenos, as opções metodológicas que se seguem são tão diversas que geralmente carecem da segurança e da força necessárias para obter adesão real.
O que está em jogo é importante: ler melhor a literatura com o auxílio dos mitos, distinguindo o que uma criação individual deve a relatos pertencentes ao velho fundo intemporal de uma civilização.
Inversamente, trata-se de manifestar a perenidade de um modo de pensamento mítico por meio da literatura, um de seus vetores privilegiados, e, para além dela, a importância desse modo de pensamento em toda atividade sociocultural.
Impõe-se trazer algum esclarecimento às relações difíceis e confusas entre os mitos e a literatura.
Cabe fazer o balanço de várias décadas de práticas dos mitos em literatura e avaliar os resultados obtidos.
Cabe ainda fornecer, para além dos itinerários críticos individuais, um quadro hermenêutico à altura do objeto estudado, com uma perspectiva coerente de pesquisa, e sugerir orientações metodológicas.
Os cinco capítulos se organizam segundo esse programa, com a preocupação maior de oferecer a cada vez a visão mais sintética e adequada possível dos diferentes pontos tratados e das soluções propostas.