Em uma tabuleta de Cnossos, a expressão “senhora do labirinto” (potnia da-pu-ri-to-jo) recebe a mesma quantidade de mel que “todos os deuses”, devendo ser uma Grande Deusa, confirmando o significado do labirinto em contextos não escritos.
O meandro é a figura linear de um labirinto, usado como sinal explicativo, e as escadarias em caracol do templo de Apolo em Dídima, que levam ao terraço, são caracterizadas como labirintos pelo padrão de meandro.
Sócrates, no Eutidemo de Platão, descreve o labirinto como uma figura com um meandro ou espiral infinitamente repetido, onde se volta ao ponto de partida, não como um lugar para se perder, mas um caminho confuso que leva de volta ao início.
A noção de labirinto como um lugar de passagens e procissões, e não de desesperança, é sugerida pelo fato de que, quando fechado, era um lugar de morte, como atesta o mosaico em Hadrumeto com a inscrição Hic inclusus vitam perdit.
Sófocles chama o labirinto de achanes (sem telhado), o que pode estar relacionado ao fato de que em Cnossos um terreiro de dança sem telhado era chamado de “labirinto”, indicando um labirinto aberto que, se se virasse no centro, era uma passagem para a luz.
Um corredor no piso térreo do palácio de Cnossos era adornado com um fresco de um padrão de meandro complexo, onde o caminho era representado pelos intervalos largos, e a situação do corredor, levando ao pátio com sete colunas (fonte de luz), indica que da-pu-ri-to-jo significava “um caminho para a luz”.
O “Knossion”, uma construção linear de espirais ou meandros em uma superfície delimitada, era um clássico percurso de procissão que levava à virada decisiva no centro, onde se devia rodar sobre o próprio eixo para continuar o circuito.
Moedas gregas de Cnossos trazem a figura angular do labirinto como propriedade nacional, e a mesma figura é atestada na Etrúria como movimento de cavaleiros em um jarro de vinho de Tragliatella.
A oferenda de mel à “senhora do labirinto” remete a um estágio em contato com uma “era do mel”, e os intervalos no Knossion eram os caminhos dos dançarinos que honravam a senhora com seus movimentos no terreiro de dança.
Homero compara o terreiro de dança no escudo de Aquiles com aquele que Dédalo construiu em Cnossos para Ariadne, descrita como uma “garota com lindas tranças de cabelo”, um epíteto mais comum para deusas.
Ariadne, filha do “malvado Minos” (Odisséia), era mortal e foi morta por Ártemis por seguir Teseu, o príncipe estrangeiro, mas foi ela quem deu o fio para salvar Teseu do labirinto, revelando sua relação com o lar do Minotauro e a dança.
O nome “Ariadne” é uma forma cretense-grega para “Arihagne”, a “totalmente pura”, que é um epíteto e uma indicação de sua natureza, assim como “Daidalos” não era originalmente um nome próprio, mas sim um adjetivo para obra hábil.
O termo Daidaleon, designando um lugar construído de forma artificial ou artística, poderia significar tanto a casa do Minotauro quanto um terreiro de dança, e é duvidoso que alguém tenha visto um edifício-prisão atribuído a Dédalo.
Homero afirma que Ariadne foi morta por Ártemis na ilha de Dia a mando de Dioniso (martyriai), porque ela havia fugido com o estrangeiro, rompendo com a esfera de poder na qual Dioniso era o grande deus.
O mito ático observava os limites do reino divino do sul, do qual Teseu não podia trazer nada que não estivesse em pleno brilho, e por isso ele abandonou Ariadne ou foi libertado de sua esfera por Dioniso e Atena.
Uma tumba de Ariadne em Argos era, na realidade, um altar onde oferendas eram feitas a ela como uma deusa subterrânea, em um santuário subterrâneo de Dioniso Cresio (“Dioniso, o Cretense”).
O epíteto “totalmente pura” estava associado principalmente a Perséfone, rainha do submundo, e os cretenses também chamavam Ariadne de “Aridela” (“a totalmente clara”), indicando seu caráter lunar.
Moedas de Cnossos mostram um desenho de labirinto com quatro meandros em formato de moinho de vento, e no reverso, a cabeça de uma deusa (Perséfone ou Deméter), certamente Ariadne, emoldurada por um meandro, e às vezes com uma lua crescente.
O paralelo com Koronis, que deu à luz Asclépio, leva ao mitologema do nascimento de Dioniso, e na versão cipriota, a morte de Ariadne em trabalho de parto forma um paralelo com a morte de Koronis e com o parto prematuro de Sémele.
Acredita-se que Ariadne deu à luz no submundo, e seu filho não era sem nome; nos vários contos, ela deu à luz vários filhos dionisíacos, mas um nascimento na morte é algo “místico”, especialmente se ela foi impregnada por Dioniso e deu à luz o próprio Dioniso.
Hesíodo corrige Homero ao falar da misericórdia de Zeus, que concedeu a Ariadne a imortalidade, e Eurípides a chama de “esposa de Dioniso”, cujo casamento e apoteose se tornaram a realização de uma mulher terrena.
Dioniso deu a Ariadne a coroa que brilha nos céus como a “coroa de Ariadne” (corona borealis), e o orador Himério afirma que “nas cavernas cretenses, Dioniso tomou Ariadne por esposa”.
O historiador Diodoro Sículo afirma que, segundo a versão cretense, Dioniso nasceu em Creta de Zeus e Perséfone, e foi despedaçado pelos Titãs, sendo este o chamado nascimento de Zagreu.
Atenágoras, o apologista cristão, relata o mito órfico em que Zeus, na forma de serpente, une-se a sua mãe Reia (que se transformou em serpente) e depois estupra sua filha Perséfone (filha de Reia e Zeus), que lhe dá à luz Dioniso.
Os três elementos do mito original são: incesto, a serpente e a relação mãe-filha entre Reia e Perséfone, em que Deméter substitui Reia como esposa de Zeus.
A incerteza quanto aos nomes dos deuses aumenta a certeza de que este era um mito cretense, onde o marido de Reia dificilmente se chamaria “Zeus” e seu filho dificilmente teria “Dio-” em seu nome.
O grande deus anônimo, na forma de serpente, gera Zagreu, a “criança com chifres” (Nonnos), sendo a serpente a forma mais nua da zoe absolutamente reduzida a si mesma, testemunhando a indestrutibilidade da vida em sua forma mais baixa.
O touro, seja como tal ou em forma parcialmente humana, domina o segundo ato do drama mítico cretense, cuja forma ritual, o despedaçamento de um touro ou bode, deu origem à tragédia grega.
O nascimento de uma criança touro, cujo destino era o de um animal de sacrifício, foi absorvido pela mitologia heroica grega na história de Pasífae, cujo nome (“a que brilha para todos”) se aplica apenas à lua cheia.
O casamento da serpente foi descartado, substituído pelo amor pelo touro, e o conteúdo deste mito foi enquadrado em uma fórmula mística (symbolon), possivelmente cantada nos mistérios: “O touro é pai da serpente e a serpente é pai do touro”.
Em Creta, o surgimento da estrela Sírio era celebrado em conexão com o mel, o vinho e a luz, e o festival da luz na caverna era um rito de mistério.
O Zeus nascido em Creta e o Dioniso cretense não eram deuses gregos distintos, mas podem ser caracterizados como “Zeus-Dioniso de Creta”, um precursor que muda de forma e se reproduz através de três fases do mito.
A primeira fase (sêmem) é a serpente auto-geradora, a segunda (embrião) é o Minotauro (mais animal que homem), e a terceira (infância em diante) é o pequeno e grande Dioniso, com sua contraparte feminina sendo Reia (mãe) e Ariadne (mãe e esposa).
O ato final do mito, a elevação do par divino Dioniso e Ariadne aos céus, baseava-se no aparecimento da deusa em seu pleno brilho no céu, sendo o casamento colocado em um cenário definido: a pequena ilha de Dia (Naxos).
Os naxianos celebravam Ariadne em duas formas (uma mortal e uma divina) e Dioniso em duas: Dioniso Meliquio (máscara de figo, o antigo sedutor) e Bakkheus (máscara de videira, o jovem noivo).
Ariadne-Aridela era a Grande Deusa da Lua do mundo egeu, e o arquétipo da concessão da alma (psique), enquanto Dioniso é a realidade arquetípica da vida (zoe), representando o par divino a passagem eterna da vida através da gênese dos seres vivos.