Os mitos de Deméter revelam uma deusa incansável em busca da filha, cuja figura sofre metamorfoses que a aproximam de divindades errantes como Io, Europa e Antíope.
O mito cretense, prehomérico, narra a união de Deméter com o caçador Yasio ou Yasión num sulco de campo arado três vezes.
Ovidio identifica Yasio como caçador; outras fontes o associam a Zagreo, grande caçador de Creta e Senhor do mundo inferior.
Zeus golpeou Yasio com um raio, detalhe ligado ao caráter subterrâneo do amante.
Do consentimento de Deméter nasceu Pluto, riqueza, fruto esperado da deusa do grão.
Em Eleusis, o nascimento de Pluto após o rapto de Perséfone não era segredo dos mistérios, e imagens das deusas eleusinas destinadas ao público mostram o filho com a cornucópia.
Duas magníficas vasilhas áticas tardias representam Pluto como criança diante de Deméter entronizada e como figura entregue por uma deusa que emerge da terra.
Nomes e imagens da riqueza, entre eles o nome Plutão, cercam os mistérios de Eleusis.
Num canto báquico ateniense e na lei sagrada de Cos, Deméter mãe de Pluto é chamada “a Olímpica”, distinguindo-se de “a Eleusina”, mãe de Perséfone.
Na Arcádia, Deméter sofre um destino mais duro que em Creta, sendo raptada por Posídon, cujo nome significa “esposo de Da”.
A deusa se transforma em égua e se esconde numa estrebaria; Posídon, em forma de garanhão, engendra nela uma filha misteriosa de nome impronunciável e o célebre corcel mítico.
Após o rapto, Deméter assume o rosto colérico e o nome maligno de Erinys; após a reconciliação e o banho no rio Ládão, torna-se Deméter Lousia, a doce.
Em Telpusa, as estátuas de Deméter Erinys e Deméter Lousia coexistiam no mesmo templo.
Nos mistérios de Licosura, como nos de Eleusis, a filha inominável, invocada apenas como Despoina, a Senhora, era a figura mais importante.
Uma Grande Deusa pode reunir numa única figura os destinos que se repetem em todas as mães e filhas, combinando os atributos femininos da terra com a inconstância da lua errante.
A deusa dos mistérios de Licosura usava manto cósmico ornado com habitantes da terra e do mar e segurava no colo a cesta mística com os instrumentos dos ritos secretos.
Em Telpusa, Deméter sozinha possuía dois semblantes num mesmo templo, um deles colérico e portador do cesto dos mistérios.
A dualidade entre Deméter e Perséfone admite duas explicações: ou uma única deusa possui dois rostos, ou duas deusas de origens distintas tornaram-se unidade inseparável.
Uma inscrição encontrada em Delos, no recinto sagrado dos deuses egípcios, onde Deméter era honrada junto a Ísis, afirma que a deusa eleusina é simultaneamente donzela e mulher.
A inscrição de Delos não esgota o segredo dos mistérios, mas aponta para um fato humano que permite ao espírito manter unidas e identificadas mãe e filha.
O mitologema de Deméter e Perséfone expressa esse fato em termos eternos e suprapessoais de modo raramente igualado.
Na dualidade mantida em Eleusis, Deméter representava o aspecto terreno e Perséfone o aspecto espiritual e transcendente, sendo Deméter a figura de acesso mais fácil para quem desejava aproximar-se da filha.
O Hino homérico a Deméter descreve pormenores do lamento da deusa que eram imitados pelos iniciados, os mistos.
A versão eleusina do mitologema pressupunha dos iniciados uma espécie de autoidentificação com Deméter, a deusa da tristeza.