Das belas tetradracmas, as moedas de Siracusa, irrompre a mais pura mitologia — e se encontra uma aparição divina representada por uma figura humana: um rosto humano e divino que se eleva das profundezas do manancial, das profundezas do mundo em direção às alturas.
Em razão de uma mitologia sistematizada, mas não viva, a denominação soberana do mundo das tetradracmas de Siracusa tropeçaria com enormes dificuldades: a mitologia permanente descansa sobre a ordem divina olímpica tal como foi representada por Homero e Hesíodo, e segundo esse ordem não se deveriam misturar ou confundir as grandes deusas com as ninfas das fontes.
O nome da ninfa Aretusa só consta, sobre a cabeça, nas criações mais tardias — a anotação era necessária porque o artista se havia afastado excessivamente do tradicional, colocando a cabeça sobre a face da moeda em perfil quase frontal, visto em suas três quartas partes.
Sem nenhum atributo que indique se a cabeça poderia corresponder a Ártemis em lugar de Aretusa — proposta já feita algumas vezes por especialistas em moedas de Siracusa —, existem motivos mitológicos que respaldam a possibilidade de uma estreita relação entre Ártemis e a ninfa: Ártemis também leva o nome de Ortigia pelo lugar de seu nascimento.
Píndaro, na primeira das Nemeas, louva Ortigia como “santo lugar de descanso de Alfeu, glorioso rebento de Siracusa, campamento de Ártemis, irmã do de Delos” — conferindo-lhe o rango de ilha de seu nascimento; Ártemis também é chamada Potâmia (rainha do rio) e leva o sobrenome de Alfeia.
O relato da perseguição — que começou no Peloponeso ocidental e acabou na siracusana ilha de Ortigia — refere-se à ninfa Aretusa, que fugiu do deus fluvial Alfeu até a Sicília; o acossador a perseguia por baixo do mar, e assim nasceu o manancial de Aretusa.
Carducci expressou poeticamente o desfecho: “Amor, amor, sussurram as águas e Alfeu / nos verdes tálamos chama Aretusa / aos conhecidos abraços.”
A estreita relação entre Aretusa e Ártemis superava a deusa clássica e apontava para uma figura primordial; a riqueza de suas aparições incluía sua presença como Perséfone — noiva e vítima de um noivo muito mais violento e subterrâneo do que o deus fluvial.
Outras cidades adornavam suas moedas com a cabeça fazendo referência à rainha do submundo, reconhecendo a verdadeira dona da Sicília; Aretusa também pode ter levado, como Perséfone, a coroa de canas das deusas dos mananciais.
Afrodita Anadiômena — a que emerge do mar — é a que mais direito teria a conter a essência do florescer do mundo; Aretusa é a que mais se aproxima, nessa faceta, da que surgiu do mar; o nascimento de Afrodita foi uma geração espontânea na água, e Aretusa permaneceu, como um eterno botão, na esfera de uma abiogênese semelhante.