A tradição conservou o nome do divulgador do cultivo do vinho na região de Prasiai — atual Porto Rafti —, o interior ático sendo uma zona vitícola que se estende até a Mesogeia ática, e esse nome está ligado ao de Icário ou Ícaro.
O poeta Eratóstenes reproduzia a história em seu poema Erígone, em tom de elegia: Dioniso visitou essas terras e se hospedou na casa de um homem chamado Icário; o deus, recebido com grande hospitalidade, presenteou o anfitrião com vinho e com o rebento de um sarmento e o encarregou de divulgar seu presente; Icário ofereceu vinho aos pastores da zona, que após beber em excesso e pensando terem sido envenenados, mataram a golpes o presenteador.
Esse traço trágico do mito do cultivo do vinho é autenticamente dionisíaco: Icário representa Dioniso, e o divulgador do vinho faz o papel do duplo do deus do vinho, morrendo como aquele em uma ação sagrada vinculada à viticultura.
A filha de Icário, Erígone, vagava procurando o pai — a cadela Mera a conduziu até o cadáver —, e Erígone se enforcou; todo isso deveria ser expiado pelo povo de Atenas, em último lugar com a introdução do balanço na festa da Aiora — e Icário, Erígone e Mera acabaram como constelações no céu: Icário como Boieiro, Erígone como Virgem, o cão como Sírio.
O nome Ícaro ou Icário não é um nome grego mas evidencia a coerência pré-grega, chegando até a Ásia Menor — na direção da qual se encontra a ilha de Ícaro ou Icária —, e inclusive até Creta, indicando a homogeneidade com o nome do filho de Dédalo; a ilha de Ícaro se conta entre os lugares de nascimento de Dioniso.
Um demos situado na encosta nordeste do Pentelikon, em Ática, levava o nome de Icária, e Icário é considerado o herói fundacional; o lugar conserva até hoje o mesmo nome do deus do vinho, sendo chamado “Sto Diónyso”, e apresenta o maravilhoso presente de uma imagem de máscara arcaica — a representação divina como deus da máscara.