Labirinto

KERÉNYI, Karl. En el laberinto.

Corrado Bologna

O mitologema do labirinto, que condensa narrativamente a vicissitude historiográfica e ideológica da cultura ocidental, estabelece uma condição de existência e um projeto de sobrevivência baseados no binômio “ser” e “mover-se” no labirinto.

O mitologema labiríntico, analisado por disciplinas arqueológicas, histórico-religiosas, histórico-literárias, linguísticas e iconológicas, corre o risco de perder sua unidade geral ao ser desviado para as múltiplas funções literárias do relato mítico.

O mitologema labiríntico deixou uma huella importante na história da cultura europeia como modelo abstrato de conjeturalidade e forma mesma do pensamento dialético, ao qual os antigos deram o nome de mêtis.

A interpretação, o discorrer dialético de um giro da argumentação ao seguinte, sempre seguindo um mesmo percurso e sempre crendo variá-lo, é o fio de Ariadna que o logos proporciona à reflexão ocidental, no qual a arcaica crueldade do enigma se torna cerebral na dialética.

Karl Kerényi aplicou-se a recoser o percurso desfiado do mitologema labiríntico e a indicar os pontos escondidos de sutura entre o momento mítico-religioso e o metafórico-filosófico ou simbólico-iconográfico em diversos textos elaborados no espaço de uns vinte anos.

Kerényi distanciou-se cada vez mais decididamente das posições de Walter F. Otto e Leo Frobenius, mas manteve a persistência de algumas categorías fundamentais deste último, como a ideia de Ergriffenheit.

O pensamento de Kerényi inscreve-se no grande projeto de uma “antropologia da cultura ocidental” no qual filologia, etnologia, história e biologia confluem com uma “iconologia do intervalo”, projeto no qual o nome de Aby Warburg pode estar junto aos de Mauss, Sapir, Spitzer, Kerényi, Usener, Duniézil, Benveniste e outros.

Para Kerényi, o mundo da mitologia é um mundo do homem totalmente orientado ao homem, no qual o homem tem que considerar que se acha em uma condição de estar aberto, aberto para fora, uma condição à qual não corresponde o “ser arrojado” (Geworfenheit), mas o “ser fundido” (Verwobenheit).

O labirinto é o brasão existencial e científico-cultural sob cujo signo Kerényi quis mover-se, e sua qualidade contraditória própria de um “homem da mêtis” é luminosa nas páginas deste livro.

A ideia de mistério serve a Kerényi para introduzir com cautela a parede arquetipo/protótipo, vinculando o momento arquetípico a uma maior proximidade ao “mundo das ideias” do que a uma imagem energético-filosófica inconsciente.

O movimento hermenêutico, imagem de um movimento de dança, compendia todo o trabalho dos “Estudos sobre o labirinto”, sendo a dança um canal expressivo do Ser que, com sua verdade, fala através da forma, o gesto, o movimento.

A analogia entre dança, música e mitologia é lançada pelo próprio Kerényi, para quem as variantes de um mitologema, se expressas do modo como a “ideia” se traduz em “movimento”, podem despertar algo que se move contra como realidade divina.

O gesto de Kerényi é humanista e hermético do “guia de almas”, que por meio do estilo e o movimento da dança saca à luz “o que de verdade conta”, ou seja, “a continuidade aberta para o infinito”.